Técnicos do Ministério da Saúde que coordenam o Programa Nacional de Imunizações, o PNI, convenceram-se de que os idosos imunizados com a Coronavac precisarão de uma terceira dose. A nova dose de reforço pode ser por meio da Coronavac, mas, por ora, prefere-se que seja feito com outro imunizante, como o da AstraZeneca.

No que depender dos técnicos do PNI, a decisão já está tomada; o ministro Marcelo Queiroga aquiesceu, ao menos internamente.

Embora a Coronavac seja segura e tenha contribuído imensamente para o esforço inicial de imunização do Brasil, os dados preliminares acerca da efetividade da vacina, entre os mais velhos, são preocupantes.

Um estudo inicial, ainda sem revisão de pares, apontou uma efetividade de 42% para pessoas acima de 70 anos – os dados contemplam apenas casos sintomáticos. Os pesquisadores descobriram que o nível de proteção cai conforme avança a idade do vacinado. Entre idosos acima de 80 anos, é de apenas 28%.

Esse tipo de investigação é essencial para entender como o nosso sistema imune reage à proteção oferecida por vacinas distintas e, assim, subsidiar uma política de imunização eficaz. Idealmente, seria necessário saber quem já foi infectado e tomou vacina. (Estudos recentes indicam uma imunidade robusta para aqueles que já tiveram COVID e foram vacinados.) O Brasil, porém, segue sem dados mínimos e individualizados acerca dos dois grupos (infectados e vacinados).

Os resultados iniciais apontam para a necessidade de um debate urgente acerca da estratégia do PNI: o governo deve aplicar uma vacina de reforço entre os mais velhos antes de imunizar adultos sem comorbidades? Ou deve manter o cronograma estabelecido, pelo qual os mais jovens provavelmente acabarão recebendo vacinas da Pfizer, a melhor disponível, mediante o risco de manter os grupos prioritários com um grau substancialmente menor de proteção?

Diante da captura ideológica de uma discussão que deveria ser científica, pesquisadores, técnicos, médicos e gestores têm medo de expor uma posição pública que possa ser interpretada como crítica à Coronavac e, consequentemente, de apoio a Bolsonaro.

Prevalece, também, o temor de que expressar publicamente reservas acerca da potência da Coronavac municie o movimento anti-vacina e prejudique a confiança dos brasileiros no imunizante mais aplicado no país.

Esse temor – quase um tabu – estende-se aos gestores do Ministério da Saúde. Eles sabem que a decisão de aplicar uma dose de reforço entre os mais velhos vacinados com a Coronavac será triturada politicamente pelo governador João Doria e seus aliados, independentemente do mérito científico da questão.

Para um dos técnicos do SUS, a decisão técnica precisa sobrepujar-se a qualquer consideração política.”Estamos falando de vidas. Precisamos agir de acordo com as evidências. A guerra de narrativas é deles (dos políticos)”, diz.

Caso Queiroga e o Planalto banquem a decisão dos responsáveis pelo PNI, ainda é incerto quando seria aplicada a terceira dose. O Brasil sofre com falta de insumos para suas duas principais vacinas (Coronavac e AstraZeneca). E as duzentas milhões de doses da Pfizer devem chegar com mais frequência a partir de setembro. Para os técnicos, porém, uma coisa é certa: quanto antes a decisão for confirmada e o planejamento, feito, mais vidas serão salvas.