O forte sol de Brasília neste 7 de setembro fez com que faixas de protesto fossem usadas pelos manifestantes como toldos improvisados para escapar do calor. Muitos desses cartazes pediam o “saneamento das instituições” e a intervenção das Forças Armadas para garantir a liberdade de todo brasileiro de bem.
A liberdade buscada pelos bolsonaristas não tem demandas temáticas, apenas uma fática: trocar os ministros do STF para que o presidente possa governar – o mesmo ocorreu com o Legislativo enquanto Rodrigo Maia presidiu a Câmara. Até Rodrigo Pacheco foi criticado hoje pelos manifestantes, e também por causa do Supremo, porque não pautou o pedido de impeachment apresentado por Bolsonaro contra Alexandre de Moraes.
Moraes tem personificado os males da corte desde que se tornou Judas nas bocas bolsonaristas, como se cada decisão contra investigados por atos antidemocráticos fosse uma moeda de prata recebida por trair o país sonhado por Messias. Para os apoiadores do presidente, afirmar nas redes sociais que há um grupo focado em “caçar” ministros é algo aceitável, mesmo para liberdade de manifestação.
E a revolta coletiva é raramente explicada com argumentos. O discurso sempre começa com palavras de ordem entoadas pelos apoiadores em uníssono, mesmo que não façam sentido quando colocadas em sequência – por exemplo, ir a protesto em apoio a Bolsonaro adornado por uma bandeira da monarquia brasileira.
É assim que Bolsonaro “estica a corda” contra as instituições atualmente. O presidente não se refere a Alexandre de Moraes pelo nome, apenas diz “vocês sabem quem é” ou faz alguma insinuação. E nunca critica o STF abertamente, se limitando a reclamar que o estão impedindo de governar – como num déjà vu de Jânio Quadros.
Foi assim, implicitamente, que Bolsonaro acendeu seus apoiadores com a possibilidade de um golpe. Disse que convocará o Conselho da República – formado pelo vice-presidente, os presidentes de Câmara e Senado, pelos líderes da maioria e da minoria no Congresso, além de sete indicados pelo presidente.
Foi prontamente respondido aos gritos de “eu autorizo” pela massa que mal o ouvia, por causa da péssima qualidade do carro de som usado. Se o viés golpista de Bolsonaro for como o alcance de sua voz hoje, em Brasília, os tiros no 6 de janeiro que ele tem em mente serão de festim.

