No afã de agradar o chefe e a turma antivacina, Marcelo Queiroga resolveu espancar a matemática, torturar a lógica e assassinar fatos científicos. Ele disse, em entrevista a uma rádio, e reiterou no Twitter que há “relação causal” entre as vacinas aplicadas no Brasil e quatro mil mortes. A informação é falsa – segundo o próprio Ministério da Saúde que ele comanda.

Como ocorre com qualquer tipo de fármaco, as autoridades brasileiras monitoram os chamados “eventos adversos” das vacinas contra covid, mediante protocolo internacional reconhecido pela OMS.

Cidadãos e profissionais de saúde registram relatos de suspeitas de eventos adversos após, por exemplo, a aplicação de uma vacina. Em seguida, especialistas analisam o caso para determinar se houve relação causal entre a aplicação da vacina e o evento adverso. Ou seja, se foi a vacina, de fato, que levou à pessoa a passar mal – a ter o evento adverso. No limite, um evento adverso pode ser uma morte.

Na vasta maioria dos casos relatados de eventos adversos, mesmo quando se confirma que realmente houve um evento adverso, como um mal-estar passageiro, é muito raro que se identifique uma relação causal entre a aplicação da vacina e o evento investigado. É muito mais comum, nesse universo já bastante restrito, que haja apenas uma coincidência temporal entre a vacina e o evento. Em outras palavras, a pessoa pode ter passado mal após ter tomado a vacina, não porque tomou a vacina.

Existe uma metodologia científica consagrada e robusta para, precisamente, distinguir entre correlação temporal (um fato aconteceu logo após outro) e causalidade (um fato aconteceu em função de outro). Em qualquer lugar civilizado, e para qualquer fármaco, o trabalho de investigação de um evento adverso busca identificar, do modo mais rigoroso possível, o chamado nexo causal entre ele, o evento adverso, e o uso da substância. É assim também no Ministério da Saúde do Brasil.

Os cerca de quatro mil casos (3.366, segundo o último boletim do governo) a que se refere Queiroga são mortes classificadas tecnicamente como eventos adversos graves temporalmente associados. Significa que existe uma correlação a ser investigada: pessoas morreram após tomar vacina. Pode ser porque já estavam doentes, pode ser por coincidência, pode ser, sim, por causa da vacina. É preciso investigar.

Foi o que fizeram as autoridades brasileiras. E o que elas descobriram? Que dessas 3.366 mortes suspeitas, apenas onze ocorreram, de fato, em virtude da vacina. Todas as onze mortes, de acordo com a vigilância do Ministério da Saúde, aconteceram em razão de um evento adverso registrado na Europa e que estava sob observação das autoridades brasileiras.

Nas palavras dos especialistas da pasta de Queiroga: “Os 11 óbitos classificados como A1 foram casos da síndrome de trombose com trombocitopenia, uma síndrome rara descrita com as vacinas de vetor viral após seu uso em larga escala na população. Destes casos, 8 foram com a vacina AstraZeneca e 3 com a vacina Janssen”. “A1” é a expressão técnica internacional para “reações relacionadas ao produto, conforme literatura”.

É importante destacar o contexto: são onze mortes em 194,2 milhões de doses aplicadas, para usar o número de imunização da data em que foi divulgado o estudo acerca dos eventos adversos, em novembro. Hoje, já são 341 milhões de doses aplicadas, de acordo com o Ministério da Saúde. Não é preciso saber nem tabuada para concluir que vale, e como vale, tomar a vacina. E a segunda dose. E o reforço.

A relação causal que o Doutor Queiroga deveria saber é esta: vacinas salvam vidas.