O secretário de Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde, Hélio Angotti Neto, decidiu barrar orientações da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), contrárias ao uso de medicamentos do chamado kit covid para o tratamento de infecções por coronavírus. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União desta sexta-feira, 21.

O grupo formado por médicos de várias áreas é responsável por sugerir ao Ministério da Saúde indicações de tratamentos contra doenças. O Conitec assessora a pasta nesse tipo de questão, com conhecimentos científicos e análises multidisciplinares. 

Em 29 de abril de 2021, o Ministério da Saúde pediu ao Conitec para desenvolver um guia com as Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com Covid-19. Depois de muitas audiências públicas, o trabalho foi encerrado em 7 de outubro. Entre as recomendações, o grupo dizia para não usar remédios como a ivermectina, por exemplo.

No documento de 45 páginas, o secretário apresenta os motivos pelos quais decidiu não aceitar as orientações do Conitec. Angotti Neto rejeitou completamente os capítulos 2, 3 e 4 que foram produzidos pelo grupo, que tratam do tratamento medicamentoso, controle de dor e sedação e assistência hemodinâmica e uso de medicamentos vasoativos. Aprovou apenas as diretrizes para o uso de oxigênio, intubação orotraqueal e ventilação mecânica.

Entre os motivos de rejeição, o secretário apontou que ainda há incertezas sobre o cenário científico diante da doença, possível viés de seleção de estudos e previamente tecidas por outras instituições, possibilidade de falhas metodológicas, falta de consenso nas reuniões do Conitec, supostos conflitos de interesse, entre outros.

O secretário também reclamou de supostos vazamentos das reuniões da comissão. Citou que os casos tiveram “intenso assédio da imprensa e de agentes políticos da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre membros da Conitec”.

Veja o resultado dos estudos do Conitec

Leia aqui o capítulo 1 das Diretrizes

Leia aqui o capítulo 2 das Diretrizes

Leia aqui o capítulo 3 das Diretrizes

Leia aqui o capítulo 4 das Diretrizes

Leia aqui a nota técnica que barrou os capítulos 2, 3 e 4.

Olavismo e tratamento precoce

Hélio Angotti Neto assumiu o cargo no Ministério da Saúde em 2020. Foi indicado pela chamada ala ideológica do governo que, por pouco, não colocou o empresário Carlos Wizard no mesmo posto. O médico é especializado em oftalmologia.

No fim do ano passado, publicou artigo científico, assinado com a médica Mayra Isabel Correia Pinheiro, que ficou conhecida como “Capitã Cloroquina”, por defender o uso do medicamento já comprovadamente ineficaz, em casos de covid-19. 

No texto, eles defendem que o uso de tratamento precoce contra o coronavírus pode ser administrado para promover o bem dos pacientes. 

“A probabilidade de pacientes e profissionais de exercer a própria liberdade de racionalmente receberem e prescreverem o tratamento precoce de forma alguma viola a liberdade dos outros, mas responde ao potencial benefício terapêutico”, diz a dupla na conclusão do trabalho.

Atualização às 15h23 de 27 de janeiro de 2022: a versão anterior desta notícia continha uma foto errada do secretário Hélio Angotti. Pedimos desculpas a ele e aos leitores pelo erro. A foto foi corrigida.