O Instituto Butantan e o governo de São Paulo seguem escondendo o quanto já foi gasto na pesquisa para a produção da Butanvac, primeira vacina contra o coronavírus 100% desenvolvida pelo laboratório nacional. O imunizante foi anunciado em julho de 2021 por João Doria e Dimas Covas, como uma nova alternativa de baixo custo para o programa de imunização brasileiro.
Em janeiro, o Bastidor pediu ao Butantan o detalhamento dos gastos da pesquisa até então. À época, o laboratório informou que divulgaria os valores quando publicasse os resultados da primeira fase de estudos da vacina. No dia 7 de fevereiro, os dados científicos iniciais vieram a público, mas sem o investimento financeiro.
O Bastidor também tentou solicitar os dados via Lei de Acesso à Informação. O pedido foi encaminhado em 13 de janeiro. Mais de um mês depois, a única resposta recebida foi que o prazo havia estourado e que seria possível recorrer para tentar forçar o governo paulista a encaminhar a planilha.
A assessoria de imprensa do Butantan também foi procurada de novo, mas informou que “não é possível divulgar os gastos enquanto os estudos estiverem em andamento”.
O laboratório garante que não usou dinheiro público e que as verbas são da Fundação Butantan, entidade privada que levanta doações para as atividades de pesquisa. Os estudos da Butanvac são realizados no Brasil e em outros países por meio de um consórcio.
Entre as entidades que financiam os estudos está a fundação Bill & Melinda Gates, que investe em pesquisas de diversas áreas, tendo grande atuação no setor da saúde. O Butantan diz que não recebeu nenhum investimento direto do consórcio ou da ONG do ex-casal bilionário, apenas conhecimento técnico.
A pesquisa
A Butanvac foi anunciada com pompa por João Doria, mas no tempo errado. Quando o governador anunciou o início dos estudos, a vacinação com outros imunizantes já tinha começado no Brasil e estava adiantada no público idoso.
O protocolo inicial previa que a vacina fosse aplicada em pessoas de todas as faixas etárias, um modelo clássico de pesquisas de vacina. A ideia era que metade dos voluntários recebesse a vacina, enquanto a outra metade receberia placebo. O mesmo aconteceria nas fases seguintes.
Como a vacinação avançou no país, foi preciso mudar o foco. Em vez de placebo, parte dos voluntários passou a receber a Coronavac. Ou seja, o estudo começou a focar na comparação das duas vacinas.
Os resultados iniciais mostraram que a vacina é segura e pode ser aplicada. Os dados estão sendo compilados, para serem repassados à Anvisa. Caberá à agência liberar as futuras fases da pesquisa.
Para que serve a nova vacina?
De acordo com o Butantan, ainda não se sabe como a Butanvac será usada no planejamento nacional de imunização. Isso porque a maioria da população já recebeu ao menos uma dose de vacina, dentre as que estão disponíveis no Brasil. O laboratório avalia se o imunizante poderá ser oferecido como dose de reforço.
Apesar de não ter foco definido, o Butantan defende a continuidade da pesquisa, já que a tecnologia dessa vacina é diferente das outras disponíveis atualmente. A Butanvac se assemelha aos imunizantes contra a Influenza, já que utiliza ovos de galinha para reproduzir cópias inativadas do coronavírus.
Como a tecnologia é parecida, a produção de doses 100% nacionais é ainda mais fácil e barata.
Atualização às 19h03
Depois da publicação desta reportagem, o Butantan enviou uma nota em que questiona o conteúdo do texto. O laboratório não faz nenhuma correção factual, embora afirme que o texto está errado. O Bastidor mantém as informações publicadas.
Eis a íntegra da nota:
“NOTA
O portal de notícias “O Bastidor” erra ao dizer que o Butantan esconde gastos com a pesquisa da vacina ButanVac.
O patrocínio financeiro dos ensaios clínicos do imunizante é feito por meio da Fundação Butantan, uma entidade privada e, por tanto, sem obrigatoriedade em lei de tornar público seus gastos, quaisquer que sejam eles. Além disso, com o estudo em curso, os voluntários seguem em monitoramento, o que gera custos a serem computados até sua conclusão.
A ButanVac teve a primeira etapa dos ensaios clínicos finalizada e os resultados preliminares de segurança são positivos. Em breve, as conclusões consolidadas serão encaminhadas à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que acompanha todo o processo e, com o aval dela, as fases 2 e 3 serão iniciadas. A previsão é que o novo ensaio clínico seja concluído ainda em 2022.”
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