O que se viu até agora do exército da Rússia na Ucrânia é, infelizmente, apenas uma amostra do que está por vir. As cenas de soldados russos sendo rendidos pela população e de veículos militares abandonados por falta de combustível provavelmente resultaram de um erro de cálculo por parte de Putin e sua cúpula militar.

Agora, porém, os russos avançam com tudo rumo a Kiev e a outras cidades estratégicas para a invasão e, presume-se, consequente ocupação. Com ucranianos atacando (com sucesso) comboios russos e soldados de Putin morrendo aos milhares (5,7 mil, segundo o governo da Ucrânia), o Kremlin passou a bombardear fortemente grandes cidades como Kharkiv, Mariupol e Kiev.

O objetivo final é tomar a capital ucraniana – já admitiram os russos, afirmando que não encerrarão a invasão antes de conquistarem todos os objetivos – e depor Volodymyr Zelensky, considerado uma nazista (apesar de ser judeu) pró-ocidente (o que é verdade) por Vladimir Putin.

Uma coluna militar russa com quilômetros de comprimento em direção à Kiev tem alvoraçado a imprensa e os governos ocidentais. O grupamento militar foi descoberto pela Maxar, mas seu tamanho exato é desconhecido. A empresa americana – reconhecida internacionalmente por sua capacidade tecnológica e de análise – divulgou ontem que o comboio tem 64 km de extensão. No dia anterior, a Maxar havia dito que a coluna tinha 40 km. Procurada pelo Bastidor, a empresa não declinou seus cálculos nem dados que pudessem ser corroborados de modo independente.

Apesar das dúvidas relevantes sobre o tamanho das forças que se aproximam de Kiev, resta indubitável que um enorme contingente militar está a caminho da capital da Ucrânia – e, mostram as batalhas mais recentes, receberá forte e indiscriminado apoio aéreo e de artilharia. A nomeação, por Zelensky, do general Mykola Zhyrnov para chefiar as tropas em Kiev e as trincheiras que estão sendo construídas só reforçam o tamanho do problema que se aproxima da cidade.

Esse modelo repete as campanhas militares de Putin na Chechênia, na Ossetia e na Geórgia. E a Ucrânia enfrentará esse rolo compressor com pouca ajuda (militar e financeira) de Europa Ocidental e Estados Unidos. Depois de ter sua força aérea fortemente abalroada pelos ataques russos, os ucranianos podem ver evaporar a doação de caças da época soviética prometida por Polônia, Bulgária e Eslováquia.

Os poloneses já disseram que não vão ceder os aviões – os outros dois países ainda não se pronunciaram. A Polônia argumenta que isso poderia ser considerada uma influência direta da Otan no conflito – como se balas, armas leves e lança-mísseis não fossem equipamentos bélicos.

Além disso, os pedidos por ingresso na Otan e na União Europeia estão sendo ignorados. E as requisições para a imposição de um espaço de exclusão aérea sobre a Ucrânia foram negadas. Sobram aos ucranianos – que também passam a enfrentar chechenos e bielo-russos – convocar prisioneiros, compatriotas que vivem no exterior e estrangeiros para se unirem as suas fileiras.

Enquanto isso, a economia da Rússia desmorona, com filas para saques em bancos e instituições financeiras russas beirando a falência no exterior. Mesmo com a realidade se impondo, Putin garante que nenhuma dessas sanções irá prejudicar seu país.