Na mesma época em que tentou aplicar um golpe de 200 milhões de reais no Banco do Brasil, o empresário Leonardo Camillo Curioni também buscou um jeito de conseguir 5 milhões no Santander. O banco privado foi à Justiça e conseguiu o afastamento dele da Sices Brasil, empresa que fundou em 2013.

A Sices teve crescimento rápido. Em 2019, chegou a faturar 1,5 bilhão de reais. Um ano depois, entrou com pedido de recuperação judicial, alegando ter dívidas impagáveis de 600 milhões de reais. No fim de março, Curioni foi alvo de uma operação da Polícia Federal, que apura o golpe no Banco do Brasil.

Segundo o Santander, Curioni contratou um empréstimo de 5 milhões de reais poucos dias depois de assinar a procuração com o escritório de advocacia que deu início ao processo de recuperação judicial. O banco afirmou que ele fez isso não só com eles, mas com outras instituições também, com o objetivo de enriquecer ilicitamente.

Em uma decisão de março de 2020, a que o Bastidor teve acesso, a 2ª Câmara de Direito Empresarial do Tribunal de Justiça de São Paulo reconheceu o pedido do banco para afastar Curioni. O relator, desembargador Grava Brazil, descreveu parte dos fatos informados pelo banco.

“A agravada Sices prestou informação grosseiramente falsa ao gerente do Santander, como se vê de mensagem envida pelo administrador da empresa na semana retrasada, pela qual afirma textualmente que ‘o mercado ainda está bom’, ‘temos estoque para faturar bem abril e maio’, ‘o único inimigo é o dólar’ e ‘a partir de maio volta ao normal’”, citou o desembargador.

Ao mesmo tempo em que pedia empréstimos nos bancos, a Sices “emprestava” dinheiro a Curioni. Em um dos contratos, no mês de janeiro, o empresário recebeu 7,95 milhões de reais da empresa que fundou. O repasse foi feito pouco tempo antes do pedido de recuperação judicial.

Grava Brazil e os colegas do TJ-SP consideram que a manobra teve o objetivo de fraudar as contas da empresa. “A informação de empréstimo em expressivo valor, em favor do sócio administrador, reforça a alegação do agravante [Santander], no sentido de que há utilização abusiva do instituto da recuperação, já que a principal recuperanda confessa que emprestou dinheiro ao sócio administrador concomitantemente à contratação de mútuo junto à instituições financeiras, no período em que, segundo relatado pelo administrador judicial”, afirmou.

No primeiro trimestre de 2020, foi observado substancial endividamento da empresa e uma queda brusca no faturamento no primeiro trimestre de 2020 – antes, portanto, do agravamento da pandemia.

A defesa de Curioni foi procurada para comentar o caso, mas não respondeu ao contato.

Investigação no BB

A fraude na BB Consórcios envolvendo Curioni foi descoberta por meio de uma auditoria interna que encontrou os indícios de irregularidades. O banco diz que conseguiu recuperar quase todos os valores repassados ao empresário, mas não informa o tamanho real do rombo deixado pela imprudência dos funcionários.

O caso segue investigado pela Polícia Federal. O inquérito corre na Justiça Federal de Brasília, mas está sob sigilo. O Ministério Público Federal não se manifesta sobre o andamento das investigações.

O Bastidor já mostrou que a Sices fechou diversos contratos com o governo federal nos últimos anos. Entre os compradores estão universidades federais e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf). 

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