Uma decisão judicial de novembro de 2020 mostra que Leonardo Camillo Curioni, dono da Sices Brasil, estava agindo com uma atitude temerária na gestão da empresa, que ele fundou em 2013. O empresário é investigado por suspeita de uma fraude de 200 milhões de reais na BB Consórcios, subsidiária do Banco do Brasil.
No despacho, o juiz que acompanhava o processo identificou gastos desnecessários, incluindo cotas na propriedade de aeronaves e o uso de carros de luxo, incompatíveis com alguém que dizia passar por dificuldades para pagar os credores.
A Sices Brasil vende aparelhos para a geração de energia fotovoltaica e possui contratos com o poder público federal. Em 2019, a empresa teve faturamento de 1,5 bilhão de reais. Um ano depois, durante a pandemia, entrou com pedido de recuperação judicial, alegando ter dívidas de 600 milhões de reais, que seriam impagáveis dado o contexto econômico à época.
Isso não alterou o padrão de vida do empresário. Na decisão a que o Bastidor teve acesso, o juiz fala que o administrador judicial possuía ao menos quatro carros de luxo para uso próprio, sendo duas Mercedes-Benz, uma BMW e um Tesla. O juiz alegou que o uso dos carros onerava ainda mais as empresas, “atendendo a interesses particulares, em prejuízo aos interesses de todos os envolvidos na recuperação judicial notadamente os credores, e que em nada contribuem para o seu soerguimento”.
O magistrado também anotou que esses “bens não se revelam essenciais para as atividades das devedoras, até mesmo por suas naturezas carros de luxo e aeronaves”. À época, o juiz mandou que os veículos fossem recolhidos para a sede da empresa, com o objetivo de reduzir os gastos.
Suspeitas de fraude
A decisão judicial foi tomada a partir de um incidente aberto pelo TJ-SP, que havia determinado o afastamento de Curioni da direção da empresa, depois que ele aplicou um golpe de R$ 5 milhões no Santander. O banco descobriu que ele fez a operação dias antes de dar início ao pedido de recuperação judicial.
A Justiça também identificou indícios de que ele subcontratou a partir da Sices outras duas empresas ligadas à companheira dele, uma que oferece serviços de coaching e outra de serviços empresariais. A primeira pertence à mulher, enquanto a outra tem como sócio administrador o pai dela.
Pouco antes da decisão do TJ-SP, Curioni decidiu se afastar por conta própria do comando da empresa e, desde então, a Sices é conduzida por um administrador judicial.
Fraude no BB
No Banco do Brasil, Curioni é acusado de ter feito dois contratos de consórcio no valor de 200 milhões de reais. Os valores deveriam ter sido usados para a compra de veículos, mas uma apuração interna do banco descobriu que ele pegou o dinheiro para comprar painéis fotovoltaicos.
A fraude foi informada à Polícia Federal, que passou a investigar o empresário. Diretores da BB Consórcios, incluindo o presidente da subsidiária, foram demitidos por causa da fraude. Eles negam as irregularidades.
O Banco do Brasil diz que já recuperou quase todo o dinheiro dos contratos junto à Sices, mas não informou o montante do rombo que ainda restou.
Leia mais:
Chesf diz que contrato com a Sices aconteceu dentro da legalidade

