A saga corporativa e jurídica provavelmente está longe de terminar, mas a desistência de Elon Musk em comprar o Twitter é uma oportunidade para a empresa melhorar seu produto. Também representa uma potencial boa notícia para as eleições brasileiras.
Para tentar cancelar o negócio de 44 bilhões de dólares, Musk afirmou que o Twitter forneceu informações enganosas e incompletas sobre as operações da empresa, sobretudo acerca de contas falsas. O argumento, embora esperado por quem acompanhava a compra, é balela. Musk sabia – e reclamava – do número de contas inautênticas no Twitter. A empresa declina essas informações periodicamente.
Também como previsto, o Twitter vai à Justiça de Delaware tentar forçar Musk a concluir o negócio. Da complexidade jurídica e empresarial do caso emerge um fato simples: os advogados do Twitter tentarão obter um acordo que renda muito dinheiro em danos à empresa e a seus acionistas; os advogados de Musk tentarão reduzir ao máximo esse valor, caso haja um acordo. Para evitar uma longa batalha, a direção do Twitter, que tem mais a perder do que Musk, pode capitular a um número menor e encerrar o assunto.
Seja como for, o litígio pode demorar e gerar toda sorte de ruído. Mas, agora e ao cabo, é altamente improvável que o Twitter tenha um novo dono – e novas diretrizes de moderação, ou ausência de moderação, de conteúdo. O Twitter libertário que Musk professava querer, no qual qualquer um diria o que bem entendesse, não está mais no horizonte, a não ser como hipótese remotíssima.
Para os brasileiros, o recuo de Musk significa, ao menos no curto prazo, que o Twitter terá condições de enfrentar as eleições deste ano como planejava: atento, por mais que erros sejam cometidos, com os perigos de campanhas organizadas de desinformação, notadamente acerca da integridade do processo eleitoral. Sem mudança de diretriz, e sem perspectiva de mudança de diretriz, os funcionários da empresa poderão agir para minimizar campanhas políticas de desinformação, conforme regras estabelecidas em parceria com o Tribunal Superior Eleitoral.
Embora não tenha o alcance do Facebook ou do Youtube, ou o alto engajamento do TikTok, o Twitter tem influência decisiva nos rumos do debate político do Brasil. Numa eleição radicalizada, na qual um dos candidatos atua para subtrair legitimidade das urnas, a permanência global de diretrizes contra desinformação desse jaez diminui as chances de que a plataforma seja instrumento para desestabilizar o processo democrático de escolha do novo presidente da República.
As difíceis eleições brasileiras também são um laboratório para que a atual direção do Twitter demonstre ter condições de superar o fator Musk e tomar decisões acertadas num ambiente hostil, em que qualquer ação ou inação será severamente criticada. Esse amadurecimento permitirá à empresa aperfeiçoar um produto à espera de um modelo de negócios sustentável – sem sacrificar compromissos mínimos com a legalidade e valores democráticos basilares.

