Havia poucas dúvidas de que a campanha eleitoral envolveria um festival de mentiras produzidas para causar impacto nas redes sociais. Nesta quinta, terceiro dia de campanha, a amostra é significativa e alarmante.
Uma montagem feita com imagens do Jornal Nacional confunde a voz da apresentadora Renata Vasconcelos com a divulgação de uma pesquisa falsa, na qual Bolsonaro aparece na frente de Lula nas intenções de voto. É o primeiro deepfake da campanha. É ruim – e o pior é que não será o único.
Deepfake é a denominação para o formato mais pernicioso das fake news: um conteúdo em vídeo, com montagem de áudio e imagens, no qual é impossível discernir a olho nu que é falso. Pode ser feito também com montagem fotográfica.
No caso desta quinta, a mentira é óbvia para quem acompanha um pouco o noticiário. Mas, feito com uma imagem do noticiário mais assistido do país, o deepfake bolsonarista pode ser usado em redes sociais para inflamar seguidores radicais (que acreditam em teorias conspiratórias) e enganar eleitores pouco informados – que, infelizmente, podem ser uma quantidade considerável.
Desde o primeiro dia, com ajuda de Bolsonaro, seus apoiadores espalham fake news de que, caso eleito, Lula perseguirá igrejas. Este é o formato clássico, que associa um boato a notícias falsas ou antigas.
Um dos efeitos deletérios do uso das fake news é a desconfiança gerada e a perda de noção do razoável num ambiente eleitoral acirrado. Fica difícil acreditar.
Na manhã desta quinta, o youtuber Wilker Leão, que costuma frequentar o cercadinho do Alvorada, local onde Bolsonaro recebe seus apoiadores, se envolveu em um entrevero com o presidente. Um vídeo feito por um jornalista profissional mostra que Leão filmava Bolsonaro, enquanto o chamava de “tchutchuca do Centrão”, “safado” e “vagabundo”. Ele levou um empurrão, caiu, voltou a filmar e o presidente tentou tirar o celular de sua mão. Imobilizado por seguranças, no final Wilker falou com Bolsonaro normalmente.
Em meio às fake news, o vídeo pode alimentar boatos de que o youtuber seria alguém enviado pelo PT para desestabilizar o presidente e gerar uma cena de violência; ou ao contrário, que seria uma armação da campanha de Bolsonaro para colocá-lo no papel de vítima. A perda da noção do que é verdade é um dos maiores riscos desta eleição.

