O presidente Jair Bolsonaro não aproveitou sua oportunidade no Jornal Nacional. Entrevistado nesta segunda-feira, ele foi o primeiro dos quatro candidatos à Presidência que terão esta chance. Bolsonaro não conseguiu tratar de temas capazes de conquistar eleitores indecisos, que não gostam dele ou que preferem Ciro Gomes ou Simone Tebet, entre outros. Para usar um termo em voga, não conseguiu “sair da sua bolha”, como seus marqueteiros e aliados desejam.
Programa mais assistido da TV aberta brasileira, o Jornal Nacional é acompanhado diariamente por cerca de 40 milhões de pessoas. Presidentes da República têm poder para fazer muita coisa, mas gostariam de agregar à lista o direito de editar o telejornal. Felizmente, não podem.
Ser sabatinado ao vivo pela dupla de apresentadores do JN pela eternidade de 40 minutos é um risco enorme. É tempo demais para ficar exposto, defender ideias, ser lógico, conciso e verdadeiro. Mas é também uma oportunidade incomensurável de falar o que quiser. Não há propaganda eleitoral capaz de equilibrar isso.
Havia uma enorme expectativa em torno da entrevista, devido ao desprezo e à agressividade que Bolsonaro dispensa à imprensa e em especial à TV Globo. Talvez justamente pela expectativa exagerada o resultado tenha parecido morno.
Bolsonaro foi acuado nos primeiros 10 minutos, quando William Bonner e Renata Vasconcelos o questionaram sobre seus ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal, urnas eletrônicas, declarações golpistas e a postura durante a pandemia. Durante toda a entrevista, o presidente recorreu sem constrangimento a mentiras nas respostas e propagou fake news conhecidas.
Bolsonaro evitou se comprometer a respeitar o resultado das eleições: usou o termo “eleições limpas”, e repetiu mentiras para colocar em dúvida a lisura das urnas eletrônicas e do processo eleitoral. Deixou em aberto, assim, a possibilidade de um golpe.
Ao falar da pandemia, voltou a usar o odioso termo “tratamento precoce” para defender o charlatanismo do uso de medicamentos inócuos contra a covid-19, como a cloroquina, que vitimaram milhares de pessoas. Também não demonstrou remorso pelas mortes de 680 mil brasileiros e insistiu na mentira de que o isolamento social e os lockdowns não tiveram efeito para evitar mais mortes.
Para sorte de Bolsonaro, a dupla do JN passou muito rapidamente pelo tema economia, justamente o que cobra mais caro do presidente nas pesquisas de intenção de voto. Não foi questionado sobre a alta da inflação e a volta da fome. Por outro lado, não teve como fazer propaganda da redução do preço dos combustíveis, do Auxílio Brasil e outras benesses do pacote eleitoreiro aprovado pelo Congresso em julho.
Os bolsonaristas vão elogiar a postura de Bolsonaro frente ao “inimigo”. Foi para eles que Bolsonaro falou, como vem fazendo desde 2019. A questão é que, em segundo lugar nas pesquisas, Bolsonaro precisa de novos eleitores. No JN, contudo, ele perdeu uma grande oportunidade de conquistá-los.

