Os quatro candidatos que estão fora do páreo, os coadjuvantes nas pesquisas de intenção de voto, dominaram o debate da Band na noite deste domingo. O presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula tiveram desempenho abaixo do esperado. Nenhum dos dois teve uma performance capaz de conquistar votos.

Como esperado, Bolsonaro foi o principal alvo dos outros candidatos. Mas o ineditismo de haver um presidente e um ex-presidente no debate alterou um pouco esta dinâmica. Lula apanhou quase tanto quanto Bolsonaro, em especial de Ciro Gomes.

Ciro, aliás, acertou os dois candidatos sem distinção. Chamou Lula de corrupto e o acusou de mentir sobre seu governo; disse que Bolsonaro não tinha coração e lembrou o que o presidente disse durante a pandemia, além de chamá-lo de corrupto e acusá-lo de corromper os próprios filhos e as ex-mulheres.

Lula e Bolsonaro demonstraram baixa capacidade de responder aos temas mais sensíveis para cada um. Quando perguntado por Bolsonaro sobre corrupção, Lula repetiu a resposta dada ao Jornal Nacional, lendo uma lista de leis aprovadas em seu governo. Questionado por Ciro sobre fome, Bolsonaro não respondeu: falou sobre o Auxílio Emergencial, mas não disse como pôde falar que inexiste fome no país.

Debates com candidatos sem chances de vitória criam uma dinâmica diferente. Eles nada têm a perder e são pouco conhecidos por terem espaço mais escasso. Assim, ficam livres para ajudarem uns aos outros e atacar os maiores.

A senadora Simone Tebet foi o maior destaque do debate, em especial no primeiro bloco. Bateu sistematicamente em Bolsonaro em todas as suas perguntas. “Não vi o presidente pegar a moto dele e ir ao hospital dar abraço a uma mãe que perdeu seu filho”, disse.

O presidente Jair Bolsonaro executou uma estratégia previsível. Falou ostensivamente sobre corrupção, fez propaganda do Auxílio Emergencial e repetiu o mantra “com o voto contra do PT”. Mas Bolsonaro esteve apagado até a metade do debate. Quando teve de responder, fez isso lendo ou em tom morno. As regras e a postura exigidas inibem Bolsonaro, porque ele não pode falar palavrões, se exaltar – recursos que costuma usar.

Bolsonaro voltou a ser ele mesmo a partir do segundo bloco. Ofendeu a jornalista Vera Magalhães e chamou Lula de “mentiroso” e “ex-presidiário”. Bolsonaro mobilizou candidatas contra ele. Apanhou de Simone Tebet e teve de ouvir: “Homem que é tchutchuca vem dar uma de tigrão aqui”, da senadora Soraya Thronicke, do União Brasil. Bolsonaro demonstrou estar desacostumado a ser questionado, ficou mal acostumado a ambientes controlados, como sua live das quintas-feiras e o cercadinho do Alvorada.

Lula sofreu do mesmo problema da falta de hábito com debates e o contraditório. Em duas respostas, o ex-presidente não percebeu que ainda tinha tempo e encerrou sua fala antes do que poderia. Lula demonstrou ainda não ter uma boa resposta para seu tema mais sensível, a corrupção, algo gritante para sua campanha. Tentou se sair de uma pergunta de Ciro com seu conhecido carisma, mas acabou sendo desmontado pelo colega.

Lula não teve um prejuízo maior que o de Bolsonaro porque foi um pouco menos atacado. Conseguiu falar sobre temas que interessam a todos, devido à sua experiência. Bolsonaro melhorou ao falar sobre o Auxílio Emergencial em diversas respostas. Mas nenhum dos dois fez o suficiente para emocionar e convencer indecisos. 

Leia mais análises sobre o debate:

A surpresa do debate

Cadê o Lula?

O autocontrole se foi rápido