A adesão oficial de Marina Silva é um inegável ganho à campanha de Lula. As imagens dos dois juntos em clima amigável, a entrega de um programa voltado ao meio ambiente e as frases da ex-ministra sobre a necessidade de união contra Bolsonaro e em favor do estado laico geraram um fato positivo de alto valor para o petista.

A aliança com Marina é um sinal civilizatório tão importante quanto a união entre Lula e seu vice, Geraldo Alckmin. De adversários, eles se tornaram companheiros. Marina, que foi destruída pelo PT, aderiu a Lula por um projeto maior. Nas duas situações, os três personagens deixaram rancores de lado em prol da democracia. É o tipo de gesto adulto que não se vê muito na política brasileira.

Agora, à questão prática. Poucos eleitores captam essa grandeza institucional, que parece coisa de países nórdicos. Os que defendem a pauta ambiental e os povos indígenas e não estavam com Lula podem aderir, mas são poucos.

O que Lula busca mesmo é que Marina ajude a trazer eleitores evangélicos, ajude a reduzir os danos causados pela campanha suja dos bolsonaristas contra ele entre este público.

Evangélica, Marina já se pronunciou contra as mentiras bolsonaristas sobre Lula. Com a adesão oficial, suas palavras terão um efeito maior entre os eleitores que professam esta fé e podem reduzir o desgaste – de acordo com o Datafolha, Bolsonaro vence Lula entre os evangélicos por 51% a 28%.

É claro que as frases elaboradas de Marina têm menos força do que as fake news escandalosas de Bolsonaro ou de seus apoiadores, entre eles alguns líderes de grande igrejas. Mas Marina é uma evangélica, dá seu testemunho pessoal, algo valorizado nas igrejas.

 A questão toda é tempo. Faltam apenas três semanas para as eleições. A chegada de Marina demorou muito, da mesma forma que o PT demorou mais de uma década para perceber que perdera o eleitorado evangélico para a direita. Está certo que os partidos de esquerda sofrem com a perda de eleitores religiosos em diversos países; o problema é o PT não ter se mexido antes.