A disputa eleitoral não acabou. Acabou a campanha, a propaganda e a votação. Mas a disputa continua.
A possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro não aceitar o resultado desta noite inaugura um conflito que só vai terminar com a posse, em 1º de janeiro.
Há meses, Bolsonaro condiciona reconhecer o resultado às eleições serem “limpas”. O conceito de limpas de Bolsonaro é particular, depende de um diagnóstico das Forças Armadas, num relatório que não será entregue. Assim como foi o primeiro presidente a fazer campanha sistemática contra as urnas eletrônicas, Bolsonaro poderá ser o primeiro a resistir à decisão expressa nelas. Usará qualquer pretexto para isso.
Fora a possibilidade de provocar tumultos, Bolsonaro prejudicará o futuro governo Lula na prática. Sua atitude atrasará a transição de governo, prática criada por Fernando Henrique Cardoso em 2002.
A lei estabelece que uma equipe de 50 pessoas, nomeada pelo presidente eleito, deve ser formada no segundo dia útil após o segundo turno – no caso atual no dia 1, terça-feira. Esta equipe se instala num prédio do Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, e passa a se inteirar do andamento do governo, com a colaboração de quem está na administração atual.
A equipe poderá ser formada, mas como dependerá de atos do governo atual, as coisas vão atrasar. É difícil acreditar que a parte mais difícil, o compartilhamento de dados, possa ocorrer. Os próximos dois meses, que deveriam ser usados para este trabalho essencial, podem ser desperdiçados numa rinha. O governo Lula poderá assumir sem ter real noção do que está acontecendo na administração, em especial no Ministério da Economia. Isso trará prejuízos ao país.

