Jair Bolsonaro não esperava perder a eleição. É verdade. Ficou abalado com a derrota. É verdade. Até aí, tudo certo. Mas não acredite em mais do que isso. O presidente não passou quase 48 horas recluso por decepção ou uma questão psicológica mais profunda. Desde o anúncio do resultado, Bolsonaro já trabalha para 2026. Todas as suas atitudes são parte da sua futura candidatura à Presidência.
Ao contrário das pessoas normais em suas atividades, políticos nunca param de fazer política. São criaturas imediatistas, para as quais o passado desaparece mais rápido do que para os outros humanos; rapidamente se posicionam no presente para armar o futuro. Não há tempo para lamentações. Bolsonaro, como todo político, é assim.
Quase ninguém se lembra de Severino Cavalcanti, o presidente da Câmara que renunciou ao cargo e ao mandato em 2005 após uma denúncia de corrupção. Em seu discurso de despedida, Severino lembrou o pai e sua infância; não falava para seus pares deputados ou para o Brasil; isso era passado. Falava para seus eleitores em João Alfredo, interior de Pernambuco. Dois anos depois foi eleito prefeito da cidade. Assim como Severino – que, aliás, era do PP de Bolsonaro -, Bolsonaro já está falando para seu eleitor.
Não cumprimentar Lula, ficar em silêncio por quase 48 horas, não reconhecer a derrota nem no discurso no Alvorada, não condenar seus apoiadores que fecham rodovias, tudo isso faz parte da estratégia de Bolsonaro. O presidente quer ser o líder de uma legião que se mobiliza e o defende – e odeia Lula e seu governo. Demorar a falar também cria uma expectativa nesses eleitores, que anseiam por suas ordens.
Os protestos nas estradas são ótimos para Bolsonaro. O ministro Paulo Guedes diz o óbvio, que os prejuízos são deste governo. Isso não importa para Bolsonaro. Durante a pandemia, no meio do mandato, o presidente se esquivou de responsabilidades. Não é agora, que tem apenas mais dois meses e um sucessor eleito, que Bolsonaro se importará com isso. Ao nada fazer contra os protestos, o presidente acena para uma porção de brasileiros insatisfeitos topam desrespeitar a lei em sua defesa. Ter este poder é um ativo e tanto para Bolsonaro negociar. É uma demonstração de força para o futuro.
Ao não cumprimentar Lula, nem reconhecer a derrota, Bolsonaro passa a imagem que essas pessoas esperam dele: de um personagem que não respeita os ritos da política e não permite qualquer mínimo ato que não seja de agressividade para com Lula. As críticas ao fato de Bolsonaro não respeitar a liturgia do cargo, não ter a elegância que se espera de um presidente são inocentes: Bolsonaro nunca foi isso, não seria agora que agiria de acordo com o que o cargo exige.
O sumiço foi uma forma de Bolsonaro agir por omissão. É uma forma de atrasar o processo de transição de governo, estabelecido em lei. Quanto mais esta fase demorar, mais o governo Lula será prejudicado, pois poderá começar a trabalhar no dia 1º de janeiro sem saber exatamente como estão as coisas – o que pode atrapalhar o início da gestão. Na prática, Bolsonaro começa a fazer oposição ao governo Lula antes mesmo que ele assuma.
Assista ao desenrolar da História como ela é. Desde a noite de domingo, Bolsonaro age como candidato a presidente em 2026, não como presidente derrotado em 2022.

