A resistência do presidente Jair Bolsonaro e as badernas dos bolsonaristas nas ruas em protesto ao resultado da eleição foram atropeladas pela lei e pelo pragmatismo da política. Nesta quinta-feira, a transição de governo começou a andar, partidos discutem seu espaço com Lula e já se fala em Bolsonaro no passado – apesar de ainda faltarem dois meses de governo.
Ao ficar quase dois dias em silêncio e demorar três para pedir que seus aliados obedecessem a lei e desobstruíssem estradas, Bolsonaro fez uma escolha. Preferiu trabalhar estrategicamente como candidato para 2026 a atuar como o presidente. Garantiu sua posição de líder da turba. Mas, como não é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo, perdeu o protagonismo do processo.
O ministro Ciro Nogueira e o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, se reuniram no Palácio do Planalto e já discutiram o início do processo. Os partidos já falam abertamente de participação no governo Lula. O próprio Ciro Nogueira, que é presidente afastado do PP, autorizou seus correligionários a conversar com Lula sobre apoio a partir de janeiro. O calendário já virou na política.
Em condições normais, esta situação seria menos acelerada. Acontece que, diante das ameaças de Bolsonaro, o mundo político agiu. Não só para evitar qualquer movimento aloprado contra a democracia, como para ficar bem com o governo que chega. Com exceção dos bolsonaristas, a maioria das lideranças partidárias não tem interesse em se posicionar contra o governo Lula desde já.
Bolsonaro ainda tem muito tempo para jogar contra, atrasar a transição, impedir compartilhamento de dados e outras chicanas. Só que as coisas andaram bem nos últimos quatro dias em que o presidente permaneceu praticamente afastado do governo. A impressão é que, sem Bolsonaro no cenário, as coisas andaram com tranquilidade – coisa que não acontece desde 2019.

