Os protestos de bolsonaristas atrapalharam a vida de muita gente, mas resolveram a do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Em um pronunciamento com frases que poderiam ser ditas por Jair Bolsonaro, Valdemar mostrou que usará o futuro ex-presidente como atrativo para adquirir o que o PL nunca teve: militância nas ruas.
Nesta terça, Valdemar teceu loas a Jair Bolsonaro, disse que ele será presidente de honra do PL e terá um salário, procurou colocar seu partido como a casa dos devotos do presidente e anunciou que fará oposição ao governo Lula. Disse até que só reconhecerá o resultado da eleição depois de ver o relatório dos militares, que será divulgado amanhã, quarta-feira.
O projeto de Valdemar é cantar a música que os bolsonaristas querem ouvir, estejam eles bloqueando uma estrada, no escritório ou na porta de um quartel.
Tudo isso aumenta o valor do PL em futuras negociações com o governo Lula. Valdemar almeja ministérios, como qualquer líder partidário. Mas, por ter as maiores bancadas na Câmara e no Senado e por ter Bolsonaro, pode fazer movimentos diferentes para obter mais benefícios em troca de apoio pontual ao governo. Deixou esta possibilidade em aberto, ao dizer que o partido pode votar pela PEC da Transição, pois ela servirá para cumprir promessas feitas por Bolsonaro.
Outra função do posicionamento nesta terça é a disputa pelo Senado. Valdemar sabe que o presidente da Câmara, Arthur Lira, é favorito à reeleição. Por isso, estabeleceu um acordo para apoiá-lo, em troca do apoio do PP para o PL conquistar a presidência do Senado. Valdemar tem razões para investir nessa disputa.
A principal é que o PL está melhor aparelhado no Senado: tem a maior bancada da casa e pode angariar mais apoio, pois a eleição mudou o perfil ideológico do plenário para a direita e a centro-direita. Com Bolsonaro no partido e um acordo com Lira, Valdemar pode fazer com que o PL ganhe o Senado. Como o atual presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, já começou a negociar o apoio de Lula, é melhor para Valdemar ir pela oposição.
O comando do Senado, com uma bancada bolsonarista e um perfil mais de oposição, confeririam a Valdemar um grande poder de negociação com Lula. Ele também teria maior poder de barganha com o Supremo Tribunal Federal – afinal, é na casa que correm os eventuais processos de impeachment contra ministros da corte. Tudo que os bolsonaristas querem é o impeachment de pelo menos um deles, Alexandre de Moraes.
Valdemar sabe que os bolsonaristas são fieis apenas a Jair Bolsonaro. Sabe que Bolsonaro é instável e nunca durou muito em partido algum. Sabe que Bolsonaro e seus filhos querem controlar o PL, em especial o caixa do partido, o mais rico de todos até 2026. Valdemar quer conquistar o máximo que puder enquanto durar a estada de Bolsonaro no PL.

