Bolsonaristas raivosos ainda dormem na porta de quartéis, a PEC da Transição vai custar muita negociação e a oposição no Congresso afia os dentes para janeiro. Mas Lula está desfrutando daqueles bons momentos que os recém-eleitos têm. A diferença é que isso não está acontecendo no Brasil, mas no Egito, na COP-27, a Conferência sobre o Clima da ONU.
Já é janeiro em Sharm el-Sheik, o balneário onde acontece a COP. Desde que chegou, Lula vem sendo tratado não só como se fosse chefe de Estado, mas como alguém do qual todos estavam com saudades e se sentem aliviados por ver. Sua agenda é a prova disso. Lula se reuniu com John Kerry, enviado especial para o clima dos Estados Unidos. Ex-candidato a presidente, Kerry é a autoridade do governo americano na área. Falou também com Xie Zhenhua, o enviado da China, e tem ainda outras reuniões bilaterais marcadas.
Nesta quarta-feira, Lula discursou na COP por pouco mais de meia hora. Prometeu retomar o monitoramento e os controles contra o desmatamento, falou em criar uma cúpula de países amazônicos para discutir ações na região, prometeu trabalhar com Congo e Indonésia para combater destruição de florestar tropicais e cobrou ações mais efetivas dos países ricos. Na prática, disse que o Brasil está de volta à defesa ambiental e anunciou ações bilaterais – tudo que o governo Bolsonaro não só se recusou a fazer, como fez o contrário. Sucesso.
Lula deitou e rolou ao dizer o que todos queriam ouvir, por isso foi interrompido por aplausos diversas vezes. Em essência, a maior parte das coisas que prometeu consiste em restaurar o que funcionava até 2018. Não é difícil, não é um grande desafio, mas parece um enorme avanço diante da postura primitiva do governo Jair Bolsonaro. Lula está sendo mimado na COP 27 graças à inevitável comparação com o desastre intencional de Bolsonaro.
Lula representa um enorme alívio para o resto do mundo pelo fato de o Brasil ser o responsável pela Amazônia. Mas há mais que isso em jogo. O mundo das relações internacionais está com saudades do Brasil – e isso está claro em Sharm el-Sheik. O Brasil tem oportunidade para recuperar o espaço geopolítico com a retomada da agenda ambiental, que lhe rendeu bons dividendos no passado.

