As atitudes do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, beiram a irresponsabilidade. Para responder à pressão que sofre do presidente Jair Bolsonaro e da bancada de parlamentares bolsonaristas eleitos em seu partido, Valdemar apresentou uma ação em que questiona o resultado da eleição sem qualquer prova. Valdemar topa questionar a democracia para ficar bem com o grupo, como se isso fosse banal.
Nesta quarta, pelo segundo dia consecutivo, Valdemar deu uma entrevista coletiva ao lado do advogado criminalista Marcelo Bessa. Falaram sobre a ação, baseada numa auditoria feita por uma entidade paga pelo PL, que questiona a eficácia de 279 mil urnas. Valdemar, um político de bastidores, que evita aparecer, colocou seu rosto na operação e empenhou sua palavra. Parece ter esquecido que, na política, um operador não pode ser protagonista.
Valdemar usou frases longas, misturou raciocínios e deu uma volta enorme para dizer que as urnas não são auditáveis, que Bolsonaro poderia ter vencido se elas não fossem contadas. Ainda assim, disse ainda que não questiona a eleição e mandou recados aos ministros do TSE. Quer agradar a dois lados inconciliáveis. Não é possível neste caso, pois se trata de coisa séria demais.
Em resumo, Valdemar acha que a ação não vai dar em nada e ficará bem com os bolsonaristas sem ficar mal com a Justiça Eleitoral. Faz o que se faz no jogo dos bastidores da política, só que em vez de lidar com dois aliados numa negociação corriqueira, desta vez coloca em jogo a democracia e suas instituições. Não é a mesma coisa. É preciso mais responsabilidade.
A eficácia da operação é duvidosa. Valdemar e o PL nunca foram de oposição. Mesmo com seus cuidados para não melindrar a Justiça Eleitoral, ele deu vários passos em direção ao bolsonarismo radical. Será difícil voltar atrás e ter um relacionamento mais próximo com o futuro governo Lula.
Valdemar faz isso porque com os bolsonaristas o PL elegeu a maior bancada do Congresso, com 99 deputados e 14 senadores. Tal desempenho garante ao partido os maiores fundos partidário e eleitoral até 2026. Serão milhões de reais sob a administração de Valdemar, o dono do partido. A ação contra as urnas é sua retribuição aos bolsonaristas, que ameaçam tomar-lhe o partido. Dará discurso para eles e para Bolsonaro por muito tempo contra o governo Lula.
Quando um político acredita que não há problema colocar em dúvida uma eleição, um dos pilares da democracia, por um casuísmo qualquer há algo muito errado não só com ele, mas com todo o ambiente. Nestes quatro anos de Jair Bolsonaro tornou-se corriqueiro aviltar a democracia e o estado de Direito de acordo com conveniências pessoais.

