As dificuldades na transição dos comandos das Forças Armadas não se resumem a uma cerimônia, nem terminam no dia 2 de janeiro. O relacionamento do governo Lula com os militares será delicado, exigirá cautela e, ao mesmo tempo, firmeza dos escolhidos para chefiar Exército, Marinha e Aeronáutica.
Conhecido por sua habilidade política, o futuro ministro da Defesa, José Múcio, não escapou de levar um baile dos militares. Depois de combinar que passariam o comando antes da posse, Aeronáutica e Marinha mudaram de posição. Só o Exército cumprirá o acertado. Sem ter tomado posse de fato, Múcio nada pode fazer.
Os quatro anos de Jair Bolsonaro deixaram marcas fortes entre os militares. Reavivaram a militância política, que sempre traz o vírus da anarquia que levou aos levantes militares no século passado. Militares de menor patente estão em acampamentos na frente de quartéis e já fizeram até vídeos defendendo um golpe. Há décadas não se via coisas do tipo.
O futuro ministro José Múcio se anuncia como um negociador que tentará contornar as dificuldades. O ministro da Justiça, Flávio Dino, que nada tem a ver com as Forças Armadas, já pediu que acampamentos bolsonaristas sejam removidos, ainda que à força. O ideal é que os dois falem a mesma língua daqui para frente.
Não importa tanto a cerimônia da passagem de comando, ainda que haja grosserias. A questão é que se trata de um sinal também dos Altos Comandos. Eles representam o pensamento de parte da tropa. Nos próximos quatro anos, o governo Lula terá de lidar com um problema que parecia do passado. Ao contrário dos discursos, não basta a mudança no calendário e nas chefias.

