Luiz Inácio Lula da Silva vestiu hoje (domingo) a faixa presidencial pela terceira vez. Ao lado de Janja, sua mulher, e o vice Geraldo Alckmin, reforçou os pilares do discurso eleitoral que serviu para justificar os inúmeros grupos que o apoiaram contra Jair Bolsonaro: reconstruir e pacificar o Brasil.
O Bastidor já mostrou que o terceiro mandato do presidente não será nada fácil – o terrorismo político voltou a ser uma realidade no Brasil após décadas; e só a polícia não será suficiente para ajudar o petista. Na esfera política, o novo governo tem base suficiente no Congresso para passar projetos de lei, mas não para aprovar emendas à Constituição.
Lula não subiu a rampa sozinho (foto abaixo), caminhou acompanhado por diversas pessoas (uma delas o Cacique Raoni), cada uma representando um grupo da sociedade brasileira. Foi dessa mistura que o petista recebeu a faixa presidencial – Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão se recusaram a cumprir o rito democrático.

Em sua fala a uma Esplanada dos Ministérios lotada, Lula chorou quando destacou a pobreza e a fome que grande parcela dos brasileiros enfrenta. Afirmou que governará para todos os brasileiros, “esquecendo as diferenças”, e que isso passa pelo fim do “ódio”, das “fake news”, das “armas” e das “bombas”. Mas o público discordou, gritando: “Sem anistia!”
Antes, na cerimônia de posse no Senado, o agora presidente chamou governo Bolsonaro de “barbárie”, de “negacionista” e de “obscurantista”. Prometeu que os crimes da pandemia não ficarão impunes.
Lula focou, também por estar no Congresso, no caráter democrático que tenta imprimir desde o início de campanha. Destacou suas alianças com antigos adversários políticos e lembrou dos tempos em que participou da Constituinte.
O presidente disse ainda que seu governo irá retomar o que estava sendo construído no país desde 1988, porque Bolsonaro destruía esse projeto nacional. Aproveitou o gancho para mais uma vez olhar ao passado e repetir os mesmos que fez em 2003, principalmente o de combater a fome com programas sociais, consumo popular e valorização do salário mínimo.
Quem é Lula

O petista, que já presidiu o país de 2003 a 2010, começou sua carreira política no Sindicato dos Metalúrgicos do Grande ABC, região metropolitana São Paulo (SP), durante a ditadura iniciada em 1964. O começo da gestão do petista foi marcado pela crise econômica e das tentativas de instalar programas de combate à fome.
Os anos seguintes garantiram a Lula reconhecimento internacional por suas políticas de inclusão social e ambientais. O período também foi marcado pelo crescimento da economia brasileira – em grande parte graças aos altos preços da commodities.
A partir do segundo ano do seu mandato, as manchetes positivas relacionadas ao governo Lula começaram a dividir espaço com denúncias de corrupção sobre compra de apoio no Congresso. O Mensalão foi uma das marcas das gestões petistas, expondo as relações corruptas entre os governos do PT e um Legislativo faminto por dinheiro público.
Após inúmeros políticos serem condenados pelo Supremo Tribunal Federal, o Mensalão deu lugar à operação Lava Jato. Em março de 2014, mesmo mês em que o STF julgou os últimos recursos da Ação Penal 470, foram iniciados os primeiros atos daquele que passaria a ser considerado o maior escândalo de corrupção da história da política brasileira.
A Lava Jato se somou às manifestações de 2013, que se espalharam por todo o país com pautas difusas e sem liderança declarada, e aos efeitos da crise econômica de 2008 que chegaram tardiamente ao Brasil por conta do esgarçamento das políticas econômicas anticíclicas do PT.
Esses fatos, que ocorreram durante os seis anos em que Dilma Rousseff presidiu o país, afetaram diretamente Lula, padrinho político da petista. O impeachment da então presidente, sucedida pelo vice Michel Temer, mostrou o nível da derrocada do PT na política.
O ato seguinte foi a prisão de Lula, em abril de 2018. O presidente ficou 580 dias preso após ter sido condenado por recebimento de bens e valores sem a devida explicação e com confusão documental. Os carrascos de Lula, Sergio Moro e Deltan Dallagnol, apoiaram Jair Bolsonaro nas eleições daquele ano, quando o capitão reformado venceu Fernando Haddad.
Em oito de novembro de 2019, por decisão do STF, Lula deixou a cadeia e voltou à política. Sua soltura foi calcada na parcialidade, segundo o Supremo, entre Moro e Deltan nas investigações da Lava Jato.
Desde que deixou a cadeia, Lula passou a percorrer o país, demonstrando que iria disputar a Presidência da República. Após perceber que não conseguiria vencer a máquina estatal dominada pelo capitão reformado, decidiu se aproximar de Geraldo Alckmin e outros até então adversários.
Foi dessas conversas que surgiu a geringonça de 37 ministérios que Lula tentará conduzir nos próximos quatro anos. O período de transição já deixou nítido que o PT não pretende perder a hegemonia, sendo egoísta na divisão de cargos com os aliados do último pleito, como Simone Tebet.

