O conflito de Lula com o Banco Central é do tipo que não tem qualquer vantagem. Sua mera existência já causa prejuízos, como se vê nos juros futuros e no câmbio. O governo não vai rever a autonomia do Banco Central para influenciar nos juros; se fizesse isso, o prejuízo seria muito maior. A briga só vale a pena para o mundo da política, que enxerga oportunidades.

No primeiro mandato de Lula, o PT tentou indicar diretores no Banco Central. Foi barrado. O partido tentou depois indicar gente para a área administrativa. Também não conseguiu. O BC é dos poucos lugares de Brasília fechados a indicações políticas.

O conflito pelo qual Lula fustiga o Banco Central devido aos juros abre espaço para sonhos que pareciam impossíveis. Até agora, Lula só criticou o presidente do Banco Central, Roberto Campos Netto, em cerimônias públicas. Jogou aberto. A questão são as informações que não vêm de Lula, surgem em off, mas servem para fomentar ou oferecer serviços de apaziguamento.

No dia 23 terminam os mandatos de dois dos oito diretores do BC – o de Política Monetária e o de Fiscalização. Cabe a Lula indicar seus substitutos, que serão sabatinados pelo Senado. O conflito serve para Lula abrir espaço para indicar alguém a seu gosto, fora da tradição do BC. Serve também para políticos tentarem fazer parte deste processo com sugestões.

Dificilmente algum político conseguirá indicar um diretor do BC, como faz na Codevasf, no DNOCS, enfim, em órgãos que têm um túnel para o submundo em que política e negócios se encontram. O BC não é isso. Mas a política também vive de buscar novos espaços dentro do governo para exercer o poder.     

A autonomia do BC é daqueles avanços civilizatórios que o Brasil demora a aceitar. Ainda não é entendida nem aceita, por isso propicia discursos de baixo nível intelectual que relacionam os juros altos a um complô contra os pobres. Faz também com que os políticos não aceitem que, em uma área estratégica para o país, os projetos imediatistas de governantes não tenham espaço.