A entrevista do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ao programa Roda Viva foi um erro. Pela natureza de seu cargo, Campos Neto não está habituado a dar entrevistas. Ainda mais em um programa diferente, que tem longa duração e seis jornalistas ávidos. Não tinha como dar certo.
Campos Neto usou colinha para responder a algumas perguntas mais capciosas. Fez acenos ao governo, como ao minimizar as pancadas de Lula sobre os juros altos e chama-lo de “este cidadão”; ao dizer que é preciso o mercado ser menos ansioso com o governo, que está apenas no começo; e ao elogiar o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Alguns podem enxergar que Campos Neto fez um gesto de conciliação a Lula, que seria o beligerante sem sentimentos; que fez isso para desanuviar o ambiente em um momento de tensão, pré-crise econômica. A depender do ponto de vista do mercado, sua atitude pode ser vista por este ângulo em dias bons e como sinal de fraqueza em dias ruins. O fato é que Campos Neto não estava suficientemente preparado para enfrentar questionamentos duros nesta fase.
De acordo com a consultoria Quaest, os adversários dos juros altos – e de Campos Neto – foram mais ruidosos nas redes sociais durante e depois da entrevista. Ninguém do governo ou da base de apoio no Congresso se pronunciou. Poucos foram os defensores do entrevistado.
Campos Neto não precisava falar neste momento, nem nunca. É o primeiro presidente do Banco Central autônomo, garantido por lei. O BC age com independência desde 2003, na gestão de Henrique Meirelles nos dois primeiros governos Lula. Mas só ganhou autonomia por lei em 2021, um enorme avanço institucional: todos os países mais relevantes do mundo seguem este modelo. É natural que, por ser o precursor nesta situação, Campos Neto ainda esteja tateando em relação ao comportamento e enfrente um ambiente que não entende o que isso significa.
Mas, no governo Bolsonaro, o presidente do BC foi fotografado em churrasco com os ministros Ciro Nogueira e Fábio Faria e estava no grupo de WhatsApp “ministros de Bolsonaro”. Quem conseguir imaginar Armínio Fraga, Henrique Meirelles ou Ilan Goldfajn nestas duas situações pode fazer sucesso com um belo livro de ficção científica. Campos Neto não pode reclamar se é visto como aliado do governo anterior.
A rigor, como o BC é autônomo, Campos Neto não precisava dar a entrevista. Autoridades monetárias são conhecidas por falar pouco e dizer menos ainda, devido ao impacto que suas palavras podem ter nos mercados. É por isso que chairmans do Federal Reserve falam em pronunciamentos. É preciso dar um desconto por ser o Brasil, onde até ministros do Supremo Tribunal Federal falam demais. Mas Campos Neto pode aproveitar sua posição privilegiada e criar uma nova tradição.

