Lula sugeriu a pessoas próximas que cansou de ouvir reclamações sobre Gleisi Hoffmann. É problema atrás de problema, seja de petistas, seja de aliados de outros partidos. Gleisi não nos escuta, Gleisi me ignora, Gleisi não me respeita. Gleisi isso. Gleisi aquilo. Lula está acostumado com as mumunhas, mas indicou que elas passaram do tolerável. Quem conversa com o presidente sai com a certeza de que está liberado ir para cima (com relativa suavidade) da presidente do PT. É o modo Lula de agir: enquadra aliados indiretamente, por meio de outros aliados, sem expor quem ganha com o movimento – ele, Lula.
Desde que Lula ungiu Gleisi à Presidência do PT, os dois desenvolveram uma relação útil a ambos. Lula, o conciliador, costuma delegar a Gleisi a atribuição de dizer “não” para pedidos que ele nem sequer quer ouvir – quanto mais se desgastar com o “não” inevitável se tiver que ouvir. Gleisi ganha porque age em nome de Lula. Ou, no mínimo, aparenta agir com o aval dele. O interlocutor muitas vezes não sabe se o toco tomado da presidente do PT veio de Lula ou dela. A dúvida é proposital.
Essa dinâmica é bem conhecida. Acentuou-se quando Lula assumiu o Planalto. Gleisi passou a controlar as nomeações do PT, com a obrigação de conciliar os pleitos das diferentes alas da legenda. Como o volume de cargos em disputa é imenso, era certo que Gleisi desagradaria muita gente. A questão em aberto, até o começo do governo, era o quanto a presidente do PT teria que se queimar para proteger Lula. E, ademais, se ela aguentaria por muito tempo a brasa alta de Brasília.
A seu modo, Gleisi cumpri e cumpriu seu combinado com Lula. Travou nomeações em todos os cantos do governo. Desgastou-se com partidos da base. E mais: desgastou-se até com aliados no PT. Mas não sem defender o que julga ser os interesses do partido no governo – e, claro, seus interesses políticos. Vide a briga com Fernando Haddad.
E aí está parte do aborrecimento de Lula. A Gleisi presidente do PT não se alinha perfeitamente à Gleisi do Lula. E nem há como. Uma precisa pensar na hegemonia de uma sigla que sempre busca a hegemonia. A outra precisa impedir que o presidente se queime com problemas que, em realidade, são dele mesmo.
Esse arranjo poderia funcionar antes de Lula subir o Planalto. Agora, mostra-se frustrante e contraproducente para ambos. Os dois já tiveram uma cota gorda de momentos ruins. Talvez superem mais um e possam manter o jogo. Mas, perto de ambos, não falta quem acredite que esse modelo não dará certo. Aliás, não falta quem trabalhe para que esse modelo dê errado. Gleisi acumulou poder na mesma velocidade em que acumulou desafetos. E, se antes não havia governo, também não havia Janja – a esposa de Lula não é exatamente fã de Gleisi. A presidente do PT pode distribuir “nãos” à larga para os lados e para baixo. Para dizer “não” a Gleisi, Lula pode usar os outros. Os antecessores de Gleisi sabem bem disso. E os antecessores de Gleisi não tiveram que lidar com Janja.

