A dificuldade enfrentada pelo governo na articulação política na Câmara é menos responsabilidade do ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e mais consequência dos erros do próprio Lula.

A análise é partilhada por parlamentares e integrantes do governo com os quais Bastidor conversou nos últimos dias. Em condição de anonimato, muitos admitiram que o presidente tem “caído no papo” do presidente da Câmara, Arthur Lira. Depois do fim do orçamento secreto, Lira se esforça para se manter na posição de principal articulador entre o governo e a Câmara.

Com os bilhões de reais do orçamento secreto sob seu controle, Lira atuou como fiador e articulador do governo Bolsonaro. Assim, mantinha o controle firme dos deputados e era capaz de garantir vitórias e impor derrotas a Bolsonaro.

O fim do orçamento secreto mudou o eixo de poder. As emendas do relator, ou RP9, por onde Lira dobrava os deputados, caíram a valores residuais. O grosso das emendas, agora, é individual e de comissão, cujo controle é das lideranças partidárias.

O presidente da Câmara, porém, trabalha com o controle sobre a agenda e sobre a virtual ascendência que exerce sobre os líderes. Ao pautar de surpresa a derrubada dos decretos de Lula no marco do saneamento, Lira quis dizer a Lula que é poderoso e o governo não pode escanteá-lo.

O erro de Lula, avaliam seus auxiliares e aliados, além de se isolar de quem pode lhe dizer verdades inconvenientes, é não delegar efetivamente a Padilha a negociação direta com líderes e parlamentares.

Um aliado do petista diz que tem faltado a Lula habilidade para aproveitar as vantagens que a proximidade de Lira conferem ao governo, sem transformá-lo em “primeiro-ministro” – como foi com Bolsonaro.

Mas há mais. O presidente não delega poder por dois motivos: 1. como presidente da Câmara, Lira quer negociar diretamente com ele —é outra forma de manter seu poder sobre os deputados—; e 2. a articulação política é dividida entre Padilha e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, responsável pela liberação de cargos, que tem esperança de ser candidato a sucessor de Lula em 2026.