A decisão do Tribunal Superior Eleitoral de tornar Jair Bolsonaro inelegível por oito anos não surpreende ninguém, nem mesmo o réu. Bolsonaro já vem se preparando para a próxima fase, conduzir a escolha de seu sucessor na direita como candidato à Presidência em 2026 e ser cabo eleitoral. Parece natural a tarefa caber a ele, mas as coisas não são simples assim.
Candidatos já existem – lembrando que ser candidato três anos e meio antes é o mesmo que nada. Especula-se que os governadores Tarcísio de Freitas, de São Paulo, e Romeu Zema, de Minas, são escolhas naturais. A primeira-dama Michelle Bolsonaro é citada, mas não é a primeira opção nem de Bolsonaro. A ex-ministra Tereza Cristina hoje é a preferida do agronegócio. Em 2026, todos ou nenhum deles pode ser lembrado.
Para ter o privilégio de escolher um deles, Bolsonaro terá de aprender a agir como líder, algo que nunca soube fazer direito. Sempre foi um político individualista, que angariou seguidores fieis com os recursos da Presidência da República à mão. Agora, terá de aprender a agir sem a máquina do governo, o que é mais difícil.
Desde março, Bolsonaro não fez muito. Só reapareceu há uma semana, devido ao julgamento. Todas suas manifestações foram sobre si mesmo, nenhuma em torno de um movimento. Bolsonaro fala muito “eu” e nenhum “nós”, o que não combina com alguém que pretende conduzir um movimento num processo de longo prazo.
Ser o patrono do bolsonarismo é fácil, difícil é trabalhar com isso. Os possíveis candidatos para 2026 não necessariamente estão com Bolsonaro. Romeu Zema não se alinha ao presidente, prefere correr sozinho. Tarcísio de Freitas é mais próximo. Michelle Bolsonaro é mais candidata do dono do PL, Valdemar Costa Neto, que do marido.
O bolsonarismo não desaparece porque Bolsonaro ficará oito anos sem poder disputar eleições. Há uma fatia do eleitorado – que chegou a quase metade na última eleição – conservadora, anti-petista, que não liga para o negacionismo ou para ameaças à democracia. Estas pessoas não desapareceram.
Mas Bolsonaro terá de trabalhar muito – e de forma diferente do que fez até agora – para ainda ser o principal influenciador na escolha delas de um candidato a presidente daqui três anos.

