Desde que retornou à Presidência da República, Lula tenta dar relevância internacional ao Brasil. Para isso, ele atua em múltiplas frentes. Ao mesmo tempo, tenta articular um cessar-fogo entre a Ucrânia e a Rússia, quer dar um fecho ao acordo entre o Mercosul e a União Europeia, trabalha para segurar o Uruguai no Mercosul e quer convencer o ditador nicaraguense Daniel Ortega a parar de perseguir a Igreja Católica.

Em duas das frentes, porém, são evidentes as dificuldades do presidente brasileiro: o acordo com a União Europeia caminha para travar, enquanto fica cada vez mais iminente o afastamento do Uruguai do Mercosul.

Segundo uma fonte da diplomacia brasileira ouvida pelo Bastidor, apesar do otimismo demonstrado nas recentes falas de Lula está cada vez mais distante a finalização do acordo com a Europa. Nesta quarta (5), como presidente do Mercosul, Lula falará com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que assumiu a presidência do Conselho da União Europeia.

Embora os dois líderes se digam aliados, há grandes barreiras a ser superadas. Uma delas, a resistência de alguns países, principalmente da França, em competir com o agronegócio brasileiro, mais competitivo – o francês sobrevive por conta dos fortes subsídios do governo.

Lula vai aproveitar as novas reivindicações europeias, que agora quer estabelecer sanções contra eventuais descumprimentos de metas ambientais (apesar de a própria Europa ter dificuldade de cumprir as suas), e dizer que pretende impor barreiras para a contratação das empresas europeias pelos estados do Mercosul. O Brasil teme que as empresas nacionais fiquem para trás.

As novas exigências, de um lado e de outro, vão atrasar a já demorada (20 anos) negociação entre os dois blocos.

Uma vantagem nas negociações com Sánchez, porém, está justamente na outra dor de cabeça de Lula (e ele vai usá-la na conversa): a ameaça do Uruguai de deixar o bloco ou exigir uma flexibilização que o permita fechar uma aliança comercial com a China. No modelo desenhado pelo Uruguai, o acordo comercial com os chineses prejudicaria o Brasil. É por isso que o Mercosul tenta segurá-lo.

No entanto, para os europeus, o problema é a entrada da China na América do Sul. É tudo o que não quer a Europa, que acordou, com a guerra na Ucrânia, para a dificuldade de influência política em países do chamado Sul Global. A possibilidade de um grande acordo econômico do Mercosul com a China assusta a Europa.

Segundo a fonte da diplomacia brasileira, no entanto, o otimismo das falas de Lula é só otimismo. É mais fácil haver uma cisão no grupo sul-americano, com o Uruguai abrindo as portas para a China, do que uma vitória de Lula, no curto prazo, em suas múltiplas frentes.