É certo que a eventual eleição de Javier Milei na Argentina significará o fim do Mercosul e causará problemas de larga escala e longo prazo ao Brasil. Mas não é preciso esperar pelo primeiro turno, no dia 22, ou pelo segundo, em 19 de novembro. No último debate dos candidatos a presidente na noite de domingo, Milei disse que, se for eleito, a Argentina não cumprirá o Acordo de Paris, o maior tratado global para a redução de gases que causam o aquecimento global.
Milei é um anarcocapitalista, um liberal radical, uma espécie de Jair Bolsonaro cabeludo, com costeletas, diploma de economia, que canta vestido de Batman em comício e propõe acabar com os parâmetros de Estado e de governo. Mas é o favorito na disputa com o governista Sergio Massa e a liberal Patrícia Bullrich.
A frase de Milei equivale a uma facada no acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, negociado há 22 anos e que o governo Lula corre para tentar fechar antes da eleição argentina.
Ao dizer que não cumprirá o acordo, Milei enfraquece absurdamente a posição do Mercosul na negociação. O principal argumento europeu para endurecer o jogo com o Mercosul é justamente a questão ambiental.
Qualquer deslize na área é usado como pretexto para fazer mais exigências ou retardar as negociações – como fez no início do ano. A estratégia é a preferida da França, que resiste ao acordo por causa da concorrência do seu setor agrícola com o agronegócio brasileiro.
A vitória de Milei seria um desastre ainda maior, pois ele já disse que sairia do Mercosul, que considera inútil para a Argentina. Acabariam, assim, as poucas chances do acordo comercial com a União Europeia.
Mas seria um desastre ainda maior para o Brasil. Sem a Argentina no Mercosul, o Brasil perde a condição de líder do continente, base do seu poder de negociação em escala mundial. Ficaria sem força para se restabelecer como um protagonista internacional após a temporada como pária durante o governo Bolsonaro. Com o Brics dominado pela China, sem o Mercosul o Brasil ficaria menor.

