Alvo da Polícia Federal em operação que investiga crimes financeiros e lavagem de dinheiro, a PetraGold já era acusada de cometer irregularidades ao menos desde 2019 pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Documentos obtidos pelo Bastidor, que constam em processos movidos por ex-funcionários da empresa, mostram que o órgão determinou, mais de uma vez, que a PetraGold parasse “de ofertar ao público valores mobiliários sem os devidos registros”.
A CVM também citou sócios de Eduardo Monteiro Wanderley – Diego Ribeiro de Jesus e Bruna Ferreira Monteiro – ao anunciar que o trio não estava habilitado “a ofertar publicamente debêntures ou ações”. A determinação não foi cumprida por eles.
Pareceres da CVM apontam que em 2019 os sócios ofereceram “oportunidade de investimento relacionada a venda de debêntures e ações preferenciais” sem nenhum registro no órgão. Há registros de atuação do grupo pelo menos desde 2016.
A empresa chegou a apresentar um termo de compromisso à CVM com o objetivo de regularizar as suas atividades. O colegiado ainda analisava o texto quando descobriu que a PetraGold voltou a fazer oferta irregular de debêntures e optou por rejeitar a proposta.
Não parou por aí. Em 2021, a CVM de novo suspendeu uma oferta pública de emissão de debêntures por indícios de que eram operações fraudulentas.
Nesse caso, segundo a CVM, a Petra contou com a participação da Indigo Investimentos Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários LTDA, que é ligada a Benjamim Botelho de Almeida, de acordo com registros do órgão.

Nos processos obtidos pelo Bastidor ainda consta a citação de um sócio oculto da PetraGold. De acordo com os autos, Arthur Monteiro Wanderley não integra o quadro societário das 13 empresas do grupo, mas participa da administração, recebe dividendos mensais e suas contas são utilizadas para depósitos de valores com o objetivo de evitar o alcance da justiça.
A atuação da PetraGold
Registros da CVM, a que o Bastidor teve acesso, mostram que o órgão teve conhecimento da atuação da PetraGold após denúncias de dois investidores que receberam propostas de investimentos da empresa.
Entre 2016 e 2018, a PetraGold realizou quatro emissões de debêntures, que totalizaram 145 milhões de reais.
Embora oficialmente a empresa dissesse que atuava na “área de serviços de correspondência bancária”, na “recepção e encaminhamento de propostas de operações de crédito e de arrendamento mercantil”, e que fazia emissão de debêntures “de forma privada a pessoas próximas e conhecidas da companhia, tais como amigos pessoais, familiares e/ou parceiros comerciais”, investigação da CVM constatou ofertas públicas de valores mobiliários sem o registro prévio no órgão.

Na mira da PF
A operação Lóris, que só foi deflagrada pela PF na somente quarta-feira (6), teve como único alvo Eduardo Monteiro Wanderley, dono da empresa que atua no mercado de capitais.
Segundo a PF, a organização criminosa também patrocinou eventos, museus, esportistas, além de adquirir um teatro, em área nobre do Rio de Janeiro, com o propósito de difundir o nome do grupo.
A juíza federal Valéria Caldi Magalhães, da 8ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, determinou o bloqueio de bens de Eduardo Monteiro e de demais investigados no valor de 300 milhões de reais, que corresponde ao prejuízo dos investidores.
Investigações da Polícia Civil do Rio de Janeiro em janeiro chegaram a apontar que a empresa impediu o resgate de valores aplicados por clientes. O valor retido ultrapassava 3,5 milhões de reais.
Procurada, a CVM disse que o “assunto está sendo analisado em processo do órgão”, que as informações são públicas e que não comenta casos específicos.
O Bastidor não localizou a defesa de Eduardo Monteiro Wanderley.
Leia os documentos produzidos pela CVM

