O fato de o presidente da Câmara, Artur Lira, ter feito ataques diretos ao ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, em seu discurso de abertura do ano legislativo na noite de segunda é uma surpresa para zero pessoas. Lira nunca foi discreto sobre isso. Sempre foi truculento nos momentos em que seus interesses foram contrariados. 

Padilha é o primeiro dos alvos de Lira neste ano de campanha para fazer seu sucessor na presidência da Câmara. Ele quer substituir Padilha por um parlamentar não-petista e de sua confiança. Depois de tomar o controle de parte do orçamento e aumentar o volume de emendas para R$ 53 bilhões, impor o ministro que cuida justamente deste departamento é um pouco demais.

A chance de o presidente Lula concordar com Lira existe no mundo da matemática, mas é invisível a olho nu na vida real. Seria entregar parte do poder presidencial.

Lira sabe disso. Mas avança neste campo porque quer não só fazer seu sucessor na Câmara, como manter-se importante depois de deixar o poder. Ele sabe que o governo quer um candidato para derrotar o seu. Portanto, antecipar o confronto é essencial para barganhar.   

Articulador de um governo que cortou uma pequena parte das emendas e vetou o projeto de desoneração da folha de pagamentos, Padilha é alvo fácil e óbvio. Bater nele é uma atitude corporativista que gera popularidade para Lira entre seus pares.

Apesar de certa agressividade, Lira foi bastante governista em 2023. Em 2024 será diferente. Para eleger um sucessor, ele precisar cortejar os deputados, não o governo. Assim, terá de conquistar a simpatia da oposição, em especial a bolsonarista. Para isso é essencial bater no governo. O Lira deste ano será mais oposicionista, o que significa mais problemas para o governo Lula.