A divulgação pela Polícia Federal de que Jair Bolsonaro enviou o equivalente a R$ 800 mil para os Estados Unidos dias antes de abandonar o mandato atrapalha seus planos para o ato do dia 25, em São Paulo. Será difícil posar de vítima.

Bolsonaro pode dizer o que quiser para justificar a remessa. Exemplo: sua defesa pode falar que ele se sentia perseguido e tinha medo que o ministro Alexandre de Moraes ou o então futuro governo Lula tomassem seus bens por pura vingança. Sua defesa diz que ele temia que a economia brasileiro ruísse. Ok, o discurso político aceita tudo.

Mas não é possível escapar do vaticínio que Bolsonaro fez o que muitos corruptos fazem: enviou dinheiro para o exterior. Segundo a PF, a suspeita é que parte do valor tenha sido amealhado com a venda das joias da Presidência, desviadas e depois recuperadas.

Bolsonaro enviou o dinheiro no dia 27 de dezembro de 2002 e embarcou para Orlando no dia 30. Ficou lá até março de 2023. A suspeita da PF é que ele ficou no exterior à espera que o golpe de Estado de 8 de Janeiro desse certo.

Foi por isso que a Polícia Federal apreendeu seu passaporte na semana passada, durante a operação Tempus Veritatis. Bolsonaro o pediu de volta pra acompanhar um pastor numa viagem, mas dificilmente o terá.

Para sustentar sua posição de vítima, Bolsonaro não poderia ter de se explicar em assunto tão delicado. Isso é mais difícil ainda para quem se fez com base no discurso contra a corrupção do PT. Aos olhos de muitos eleitores, Bolsonaro é apenas mais um político, imagem que ele sempre combateu.

Bolsonaro pode até ter o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a seu lado na manifestação do dia 25. Seus seguidores mais próximos podem acreditar em qualquer versão que ele disser, mesmo a mais esdrúxula. Mas a imagem que se forma é que Bolsonaro pretendia fugir ou viver no exterior, como vários corruptos já fizeram.