O impacto da homologação do acordo de delação premiada do policial Ronnie Lessa vai além da solução dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018. A depender do alcance do que Lessa disser, poderá haver consequências políticas e policiais de maior alcance.
Do ponto de vista político, a medida justifica a ação do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, de fazer um anúncio formal. Fora a importância de solucionar um caso simbólico, de ataque do crime organizado à democracia, o governo Lula tem a oportunidade de demonstrar que está empenhado em atuar na área da segurança, uma cobrança da população.
Sacia também o desejo de mostrar serviço em uma área que é praticamente monopólio da direita e, em termos eleitorais, de Jair Bolsonaro.
Apontado por um comparsa como assassino dos dois, Ronnie Lessa é maior que isso. É um miliciano de destaque, exemplo de mau policial que se tornou criminoso e viveu livre por conivência de um estado disfuncional. A depender do que falar – e de até onde a Polícia Federal quiser e puder ir – o que Lessa disser poderá ter consequências graves não só nas milícias, como na polícia do Rio.
Lessa tem capacidade para revelar mecanismos de ação, financeiros, ramificações e identificar pessoas. Será inevitável que suas revelações atinjam policiais e autoridades em atividade. O governo do Rio deve saber que poderá haver instabilidade na segurança e na política local.
Sabe-se que o assassinato de Marielle e Anderson permanece insolúvel há seis anos porque policiais e autoridades locais agiram sistematicamente para impedir a investigação. Fora a humilhação para a polícia carioca, o fato de a Polícia Federal intervir e solucionar o caso indica que autoridades federais estão dispostas a enfrentar o crime organizado.
O recado para os criminosos é que o jogo pode ficar mais pesado.

