Não precisa checar: Lula e o governo federal estão trabalhando para ajudar o Rio Grande do Sul. Desde que as chuvas começaram a castigar o estado, o presidente agiu e determinou que seus ministros agissem. Todos foram convocados a participar, cada qual dentro de suas atribuições, nos esforços liderados pelo governador Eduardo Leite e os prefeitos dos municípios afetados. De acesso a bilhões em crédito barato a Pix emergenciais para famílias que perderam suas casas, o governo federal passou a anunciar diariamente medidas necessárias para o socorro imediato aos gaúchos.

As medidas necessárias do governo Lula contrapõem-se aos atritos desnecessários do presidente Lula. O líder que levou, prontamente, os chefes do Legislativo e do Judiciário a Porto Alegre, de modo a demonstrar a união política em prol dos gaúchos, é o mesmo líder que insiste em desqualificar adversários – a maioria deles imaginários – como “gente que propaga fake news”. Que precisa “ser banida da política”, como Lula disse hoje em cerimônia em São Leopoldo.

A ênfase de Lula nas “fake news” como um problema que existe na calamidade no Rio Grande do Sul, e, sobremaneira, que existe como um problema grave e prioritário, é contraproducente. Atrapalha em vez de ajudar. Divide em vez de unir. Desperta paixões tóxicas. Elas contaminam o sentimento de solidariedade que prevalece em Brasília e entre os brasileiros.

Logo após qualquer desastre, há informações desencontradas, críticas, exageros e, em alguns casos, o que se pode chamar de “fake news”. Daí as “fake news” serem graves, e abundantes a ponto de causarem problemas sérios à população, vai uma longa distância. No desastre gaúcho, observe-se que, ao menos por ora, não há estudos apontando a presença de notícias falsas em larga escala, muito menos uma “onda de fake news”, como também disse Lula, secundado pelo ministro Paulo Pimenta. Novamente: claro que notícias falsas existem. A questão é se, em determinada situação, constituem um problema grave e, caso constituam, se e como agir diante disso.

Ressalte-se que o presidente e seus principais aliados não têm legitimidade para criticar o que chamam de “fake news”. Lula e o PT, especialmente em campanhas eleitorais, atacam, há décadas, a imprensa e os adversários políticos com as armas tradicionais da desinformação. Mentiras, meias verdades, fatos descontextualizados para vender narrativas exageradas: esse arsenal político é manuseado com desassombro pelo PT e seu aparato de propaganda.

Marqueteiros como João Santana, que ajudou a aniquilar Marina Silva em 2014, e as redes de blogs e influenciadores montadas por José Dirceu e Franklin Martins envenenavam a opinião pública brasileira muito antes de Jair Bolsonaro surgir como líder no cenário nacional. A desinformação bolsonarista emporcalhou o que já estava sujo.

O ímpeto de Lula e de alguns de seus ministros em qualificar como “fake news” tanto possíveis notícias falsas quanto opiniões legítimas expõe uma visão de mundo intolerante. Não só. Como o presidente emprega o termo “fake news” livre e equivocadamente para designar críticas ou reclamações contra o governo, a reação de quem está embaixo ou se preocupa com o debate público é intensa e imediata. Ninguém ganha com isso.

O abuso contra o dissenso

O palavrório é prejudicial, mas a coisa piora bastante quando o governo mobiliza o Ministério da Justiça, a Advocacia-Geral da União e a Secretaria de Comunicação para “combater fake news” sobre a calamidade no Rio Grande do Sul. Os exemplos de “fake news” que fundamentaram as primeiras ações do governo demonstram uma ignorância inaceitável acerca de um assunto para lá de complexo. Havia críticas, opiniões e reclamações de populares. Nada que justificasse, nem de perto, abrir um inquérito no Supremo Tribunal Federal. O abuso estatal e a arbitrariedade política são evidentes para quem não está subjugado por delírios ideológicos.

Nos discursos oficiais, sobrou até para os milhares de voluntários que arriscam as vidas para salvar os outros. Às vezes direta, às vezes tacitamente, impunha-se o selo de “fake news” a discursos contra o governo ou a atuação do estado no desastre. O selo logo era estendido aos civis que ajudavam e reclamavam abandono. Aparentemente, alguns em Brasília esperavam razoabilidade e equilíbrio de quem estava sob o peso do trauma recente de uma calamidade inédita. Isso inclui paisanos, militares e políticos. Gente comum sob extraordinária pressão.

De nada adianta reduzir toda e qualquer crítica ou ataque político à “extrema direita” que “precisa ser banida”, como disse Lula. É uma caracterização equivocada. Corrói a confiança de governados em governantes. No Rio Grande do Sul, a insatisfação, a angústia e os demais sentimentos presentes numa tragédia estão longe de ser uma exclusividade de “bolsonaristas”. E, mesmo que fossem, Lula foi eleito para governar todos os brasileiros, mesmo os que não votaram nele.

A nomeação de Paulo Pimenta, um dos principais combatentes contra as “fake news”, para coordenar os esforços do governo federal na calamidade mostra que Lula tem convicção de estar no caminho certo. Ele ignora os riscos de que Pimenta, um político excessivamente combativo para um posto que requer habilidades diplomáticas, provoque embates improdutivos com prefeitos e o governo gaúcho. Quem está no Rio Grande do Sul e vive na política acredita que esses riscos são, na verdade, uma certeza matemática.

Se a pauta das “fake news” prosseguir como uma prioridade de Pimenta, ele provavelmente será devolvido a Brasília. Lula terá uma encrenca dobrada. Precisará conter danos e escolher um novo aliado para tocar a dificílima missão de representar o governo federal no Rio Grande do Sul.

Do combate à compreensão

Lula, seu governo, o país e, sobretudo, o Rio Grande do Sul ganhariam muito se o petista alargasse seu entendimento sobre o “combate a fake news”.

Quer combater “fake news”? Abandone o termo “fake news”. Hoje, ele encerra uma mentalidade de luta virtuosa e moralista que impede a construção de consensos factuais. O debate público é, por natureza, ruidoso. Sobram exageros, omissões, distorções, meias verdades. Fatos incontestáveis são incomuns. Notícias deliberadamente falsas, também.

Desinformação é um problema mais profundo. Ora envolve propaganda, principalmente estatal; ora envolve pessoas e veículos agindo de má fé, ao vender como verdade uma agenda privada afastada dela; ora envolve uma combinação das duas coisas.

“Fake news” não significa bulhufas há anos, desde que Trump transformou esse conceito em arma política para desqualificar a imprensa. “Fake news” é um selo ligeiro e esquemático, que, tacitamente, pressupõe uma avaliação binária de fatos normalmente complexos. Na política, o selo convida ao erro. Dificilmente fatos da arena política são puramente “verdadeiros” ou categoricamente “fake news”.

Essas tentativas simplórias de botar ordem em nossa balbúrdia epistêmica dão errado. Quando o governo mete-se com tudo nessa briga, a derrota é certa – para todos.

O manejo de “fake news” por políticos e governantes costuma trair um ímpeto autoritário de quem quer mandar no discurso e controlar o fluxo público de informação; do outro lado, não faltam os que expõem um cinismo vazio ao reclamar do selo recebido – são os oportunistas da “liberdade de expressão”. No meio, prensados por essa disputa política e ideológica, restam os que se importam com os fatos e um debate alicerçado neles, sem pirações e conduzido com boa fé.

Para melhorar a qualidade do debate político, é preciso relembrar que ele, o debate político, envolve informações e opiniões em colisão constante; hoje, uma colisão acelerada pelas redes sociais. Esse debate é rico porque comporta erros e uma pluralidade imensa de visões diferentes sobre os mesmos assuntos.

Não ter controle sobre essa colisão acelerada pode assustar alguns. Sabe o que pode ser mais assustador? Haver um controle sobre ela. (Por isso que a regulamentação de plataformas digitais é um tema tão difícil.)

Talvez seja salutar dar um passo atrás. Reconhecer que cada um de nós pode se equivocar, antes de apontar o outro como o equivocado. Relembrar que o outro, na vasta maioria dos casos, não agiu de má fé, mesmo que, aos nossos olhos, possa estar equivocado. Pressupor erro e má fé no outro assegura o conflito. Ninguém fica mais perto da verdade possível.

O afã de gritar “fake news” dificulta o exame sóbrio dos fatos sob questão e a análise caridosa das circunstâncias que podem ter levado o outro a produzir a tal “fake news”. Sem incentivos para se aprofundar nos fatos e nas razões do outro, o erro de quem aponta o erro torna-se provável. Juízos de fato exigem técnica, pesquisa e reflexão. Para que se erre com menos frequência.

Na dúvida, não se deve acusar. Na dúvida, não se deve falar antes de ouvir. Na dúvida, deve-se escutar. Investigar. Refletir. Seja como for, é recomendável pensar bastante antes de carimbar um “fake news” no outro. É igualmente necessário desconfiar muito de quem atribui aos adversários, a todo momento, esse selo e as más intenções que ele carrega. Basta checar: o selo não raro é fake.