Pode haver alguma forma de o ministro das Comunicações, Juscelino Filho, ser mais exposto no cargo como um participante de um esquema de corrupção, mas é difícil. Juscelino foi indiciado pela Polícia Federal nesta quarta-feira, após meses de exposição. Sua permanência no cargo é mais uma prova que as coisas mudaram nas relações entre governo e partidos, governo e parlamentares.

Há meses circulam provas de que Juscelino está envolvido em desvio de dinheiro público que ele enviou por emendas parlamentares à cidade onde sua irmã é prefeita. A PF não tem dúvidas disso.

Mas foi-se o tempo em que um ministro caía por corrupção. Foi-se também o tempo que partidos ameaçavam votar contra o governo, caso um ministro caísse. Era o tempo em que os partidos queriam ter um ministro para ter acesso a cargos e verbas.

Juscelino, do União Brasil, interessa menos aos partidos porque parlamentares têm mais poder de influência direta no orçamento, como vertiginoso aumento dos valores destinados a emendas parlamentares: de 16 bilhões de reais em 2021 para 52 bilhões de reais este ano.

Em resumo, parlamentares precisam muito menos de um ministro do seu partido ou aliado para ter acesso a dinheiro público para suas bases políticas (ou para outros fins). Agora, eles têm acesso mais direto, apenas por terem sido eleitos, por meio de emendas ao orçamento.

É claro que ter Juscelino no cargo facilita a vida de parlamentares seus aliados em defesa de seus interesses. Mas ter um ministro já valeu mais. Ter emendas vale muito mais.

Assim, a queda ou permanência de Juscelino em um ministério com poder de influência, mas orçamento relativamente pequeno, interessa menos aos partidos do que há alguns anos. 

O que preocupa os parlamentares é menos Juscelino e mais a investigação feita pela Polícia Federal. Interessa mais conhecer as técnicas da PF para reconstituir que caminho fez o dinheiro entre a liberação para a prefeitura até beneficiar Juscelino.