É sempre importante separar o que o presidente Lula diz em entrevistas das suas atitudes na realidade. Nesta terça, Lula afirmou em entrevista à radio Sociedade, de Salvador, que fará amanhã uma reunião para tratar da recente alta do dólar. Se realmente fizer isso, deverá ser uma cena para a plateia.
Nas últimas duas semanas, que coincidem com os feriados informais do Judiciário e do Legislativo, Lula cumpriu uma extensa agenda de entrevistas a rádios do interior, uma estratégia recorrente de governantes.
As pesquisas da Secom mostram que a popularidade sobe sempre que Lula dá entrevistas assim, graças a seu tom mais enfático e direcionado a seu eleitorado mais fiel.
Por outro lado, há uma correlação entre as falas de Lula e o comportamento no mercado de câmbio. No dia 2 de junho, o dólar valia R$ 5,23; nesta terça, a moeda é vendida a R$ 5,65, uma variação de 8% em um mês. É muito.
É claro que tudo isso não é efeito das falas do presidente, pois o mercado de câmbio sofre influência de outros inúmeros fatores. Mas é óbvio que parte disso é responsabilidade de Lula. Quando o presidente diz o que quer, parte do mercado busca se prevenir, outra parte aproveita para especular e tentar ganhar dinheiro, é o jogo dos espertos.
O cálculo daqui para frente no governo é quanto custa ao país alavancar a popularidade de Lula com entrevistas. É preciso pensar até onde ir com a estratégia, pois a alta do dólar impulsiona a alta da inflação – que pode prejudicar a queda dos juros, que tanto incomoda Lula – e aumenta o custo financeiro para o governo.
Pior de tudo, é que se trata um efeito que Lula provoca, mas não tem como consertar: só quem pode intervir no câmbio – ainda assim com alcance limitado – é o Banco Central, que tem atuação independente. A decisão cabe à diretoria do BC e, em última instância, a seu presidente, Roberto Campos Neto – sobre quem Lula segue o velho conselho de ACM e fala mal pelo menos duas vezes ao dia.

