A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de levantar o sigilo do inquérito das joias nesta segunda-feira (8) pode trazer novos detalhes ao público, mas não muda a péssima situação de Jair Bolsonaro. Tudo é uma questão de tempo – e o tempo está nas mãos de Moraes, da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.
A PF pediu o indiciamento de Bolsonaro na sexta-feira (5). Moraes recebeu os autos e liberou tudo ao público nesta segunda (8). Agora, a PGR tem um prazo para examinar tudo. Depois desse exame, cabe a Paulo Gonet decidir se pede mais informações à PF, se denuncia Bolsonaro ao Supremo – ou se arquiva o caso. Mas isso pode acontecer só depois da eleição, em outubro. Esse tempo, porém, não é bom para Bolsonaro.
Detalhes do processo ajudam a desgastar Bolsonaro publicamente. No conjunto de documentos, que tem mais de 2.000 páginas, desperta curiosidade o extrato da conta bancária de Bolsonaro no Banco do Brasil, pela qual ele recebe seus ganhos como militar da reserva e recebia o salário de presidente da República. Ali, uma ausência serve como evidência.
De acordo com a PF, a análise dos extratos mostra que Bolsonaro não usou seus únicos ganhos conhecidos para se sustentar durante os três meses que viveu nos Estados Unidos. A hipótese investigada é que suas contas podem ter sido pagas com o dinheiro da venda das joias – que não eram dele, mas patrimônio da Presidência.
Mesmo assim, nada indica que Bolsonaro pode ser preso rápido. Não se prende um ex-presidente de forma preventiva – ainda que Bolsonaro tenha tomado atitudes que poderiam levar a isso, como o fim de semana na embaixada da Hungria. Em 2018, o então ex-presidente Lula só foi preso após condenação em segunda instância – e isso apenas depois de perder recursos no STJ e no Supremo.
Esta falta de pressa não é necessariamente positiva para Bolsonaro. Reduz suas opções políticas, como a de se colocar como vítima de perseguição. Também pode obrigar o ex-presidente a explicar detalhes que não sabia serem do conhecimento dos investigadores.
Da forma como as coisas estão, a partir de agosto Bolsonaro fará campanha para candidatos do PL sob a sombra de ser denunciado pela PGR ao Supremo a qualquer momento. Caso a PGR não cumpra o prazo normal de 15 dias e espere o fim da campanha para fazer a denúncia, os prefeitos já estarão eleitos por quatro anos. Nem a embaixada da Hungria será uma opção, pois que a PF já a conhece.

