A postura do governo Lula de exigir que a Venezuela divulgue as atas das votações antes de reconhecer o resultado da eleição de domingo, é um tratamento duro e inédito para os padrões das relações entre os dois países nos últimos 20 anos. Contudo, faz parte de uma estratégia defensiva, num cenário adverso para o Brasil. Lula tem poucas saídas para um problema que ele mesmo criou. 

Nos últimos meses, Lula se afastou do ditador Nicolás Maduro. Deu declarações em favor da união da oposição venezuelana e mandou o Itamaraty responder com dureza ao ataque da Venezuela à Guiana. Exigir as atas de votação é uma forma de o Brasil expor Maduro no cenário internacional e mostrar um distanciamento que antes não havia.

“Lula está operando na defensiva, porque a Venezuela pode ser um problema maior em caso de vitória de Donald Trump” afirma Matias Spektor, professor da Fundação Getúlio Vargas. “Neste cenário, a questão colocaria o Brasil em rota de colisão com os Estados Unidos”. Portanto, trata-se de uma questão de “precisão”, como diria o diplomata Guimarães Rosa.

Para o Brasil, a Venezuela é um problema porque pode gerar uma onda de refugiados e piorar a situação do crime organizado na Amazônia. Para os Estados Unidos, a Venezuela é a principal base da Rússia na América Latina: as forças armadas e o serviço de inteligência venezuelanos são bancadas pelo governo russo.  

Tudo que não interessa ao Brasil é estar perto de Maduro na eventualidade de um conflito deste tamanho. A Venezuela é um tema minúsculo na política brasileira, pouco mais que um clichê de memes bolsonaristas. Mas Lula não pode se dar ao luxo de ser alvo fácil de Trump a partir de novembro. Vença Trump, vença a democrata Kamala Harris, o governo americano seguirá com as sanções à ditador de Maduro.  

“É por isso que o Lula só falou sobre a eleição na Venezuela depois de conversar com o (presidente dos Estados Unidos, Joe) Biden”, diz Spektor. O governo americano sabe que as tais atas, que comprovariam as votações, não existem. Ao lado de Colômbia e México, o Brasil faz o jogo de constranger Maduro, mas não deve romper com Maduro. “Lula será mais crítico a Maduro. (O assessor especial) Celso Amorim não sorrirá, Lula não celebrará a Venezuela”, diz Spektor. “Mas não vai quebrar a Venezuela”.

A Venezuela é um problema que o governo Lula criou a partir de 2003. “Os governos Lula e Dilma são co-responsáveis pela ditadura na Venezuela”, diz Spektor. “No início dos anos 2000, o governo Lula usou dinheiro do BNDES para gerar negócios para a Odebrecht e financiar as campanhas no Brasil”. Foi por obra dos governos Lula e Dilma que a Venezuela foi admitida no Mercosul e nos Brics.

Um problema criado no passado cobra preço alto agora. “Agora que não há dúvida que a Venezuela é uma ditadura que nada deve à da Argentina (1976-83), Lula está em uma situação difícil”, diz Matias Spektor.