Mais de uma semana depois das eleições na Venezuela, o governo brasileiro segue tentando negociar uma saída para a crise provocada pela provável fraude criada por Nicolás Maduro. Nesta segunda-feira (5), em visita ao Chile, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentará convencer o colega, Gabriel Boric, a reduzir o tom das críticas contra o venezuelano.
Boric foi um dos poucos líderes de esquerda da América Latina a questionar diretamente o resultado anunciado por Maduro e reconhecer a vitória do opositor, Edmundo González. A maioria aceitou imediatamente o que o governo venezuelano divulgou, sem apontar dúvidas quanto à lisura do pleito. Enquanto isso, Brasil, México e Colômbia têm exigido a apresentação das atas eleitorais para que seja reconhecido o vencedor.
A posição dos três países é quase única na comunidade internacional. Regionalmente, todas as demais nações já tomaram uma direção contrária ou favorável a Maduro. A oposição venezuelana reconhece que o trio age de forma conservadora, mas enxerga como uma vitória ver governos de esquerda, das principais democracias da América Latina, colocarem dúvida sobre o resultado divulgado pelo governo chavista.
No domingo (4), a União Europeia divulgou nota em que aponta um posicionamento semelhante ao dos três países. Os europeus exigiram uma verificação independente dos resultados, com base na íntegra das atas eleitorais que o governo chavista insiste em esconder. Entretanto, diferente do trio latino-americano, a comunidade ressaltou que a demora na divulgação só aumenta as dúvidas relacionadas ao resultado divulgado por Maduro e exigiu a libertação de manifestantes presos pelo regime.
Na última semana, Maduro encenou um grande teatro para sustentar a manutenção dele no cargo. Apresentou à Suprema Corte local um pedido de verificação dos resultados, para supostamente atestar a vitória. Ocorre que o tribunal é dominado por chavistas indicados por ele próprio, assim como no Congresso, onde não há oposição suficiente para demover os desejos do ditador.
Essa situação também complica a vida de González. Ainda que uma auditoria externa comprove que ele foi o vencedor e a pressão internacional o coloque na cadeira de presidente, ele precisará governar em um cenário quase impossível. Será preciso limpar a influência do chavismo, amplamente impregnada no serviço público e restabelecer um novo governo praticamente do zero.
Essa equação acaba favorecendo Maduro. Por isso, apesar da pressão, o ditador age como alguém que não sairá do cargo. Além do cenário interno, ele tem o apoio das duas maiores economias dos Brics, a Rússia e a China. Ambos os governos já o parabenizaram pela suposta vitória e estão dispostos a mantê-lo no posto, diante da possibilidade de aumentarem a influência econômica e militar não só na Venezuela, mas em toda a região.

