Ainda é cedo para entender todos os desdobramentos do Vaza Toga, mas é óbvio que o ex-presidente Jair Bolsonaro e sua defesa ganham recursos a explorar contra sua prisão num futuro próximo. Bolsonaro está encostado nas cordas, mas ganhou um espaço para respirar e voltar a atacar.
Como foi divulgado até agora pela Folha de São Paulo, as mensagens entre assessores indicam que o ministro Alexandre de Moraes pode ter usado elementos colhidos pelo Tribunal Superior Eleitoral num inquérito do Supremo Tribunal Federal sem observar o devido rito processual.
Isso dá a Bolsonaro a chance de bradar que Moraes não “jogava nas quatro linhas”, uma frase que corre fácil das redes sociais. É óbvio que Bolsonaro usava a expressão numa situação diferente, quando mentia sobre as urnas eletrônicas e questionava a posição de Moraes no TSE. Mas o discurso político aceita tudo – e Bolsonaro nunca ligou muito para limites. Bolsonaro poderá dizer que o ministro atropelou a lei para, na sua visão, perseguir quem o defendia.
Questionar a lisura de Moraes é uma saída óbvia da defesa de Bolsonaro para desmontar o inquérito das fake news e tentar tirar das costas de Bolsonaro parte da acusação de ter tramado um golpe de Estado. Existem outras evidências disso, mas a Polícia Federal relaciona a atuação dos apoiadores bolsonaristas, que dispersaram mensagens antidemocráticas e mentiras nas redes sociais para colaborar com o projeto de golpe em 2022.
A longo prazo, a descoberta dá sobrevida ao sonho de Bolsonaro de se vingar de Moraes, ao conseguir seu impeachment no Senado. A prioridade de Bolsonaro é, antes de tudo, aprovar no Congresso uma anistia para os golpistas de 8 de janeiro. Ele não pensa nos apoiadores, mas em pegar carona e se beneficiar. A vingança contra Moraes e o Supremo vem depois.
Os dois projetos dependem de Bolsonaro conseguir eleger uma expressiva bancada em seu apoio em 2026. O caso do impeachment de Moraes depende de esta bancada ser forte no Senado, que examina pedidos assim. Bolsonaro quer colocar toda a família na casa – reeleger o filho Flávio, eleger os filhos Eduardo e Carlos e a mulher, Michelle – para começar o trabalho.
Bolsonaro tem a seu favor dois meses de exposição diária na campanha eleitoral municipal para atacar Moraes, explorar de todas as formas a questão das mensagens vazadas, colocar em dúvida a lisura do TSE e do Supremo. Tem tempo à sua disposição para mobilizar seus seguidores mais ferrenhos e reconquistar outros.

