Não são pequenas as divergências entre os institutos de pesquisa em relação à acirrada eleição em São Paulo. O máximo que se pode dizer é que Ricardo Nunes, do MDB, Guilherme Boulos, do PSol, e Pablo Marçal, do PRTB, disputarão as duas vagas no segundo turno, sem chances para outros candidatos. O cenário é mais confuso ainda nas pesquisas internas feitas pelas próprias campanhas. O ziguezague de números expõe o limite das pesquisas para se apontar o rumo das campanhas.

Os trackings, pesquisas diárias feitas por telefone, mostram que cada um acredita no que quer. O Bastidor recebe diariamente essas pesquisas internas. Nesta quarta-feira (2), por exemplo, o cenário era radicalmente diferente nos números captados pela coordenação de Guilherme Boulos e pela equipe de Ricardo Nunes.

No caso de Boulos, o resultado era o candidato do PSol na liderança, com vantagem de quatro pontos percentuais sobre Pablo Marçal, que aparecia em segundo lugar. O prefeito Ricardo Nunes ficava em terceiro, com desvantagem de 6 pontos percentuais para o candidato do PSOL e 4 pontos percentuais para o coach.

Já os números coletados pela campanha de Nunes diziam o oposto. Colocavam o atual prefeito na liderança, com vantagem de 7 pontos percentuais sobre Boulos e de 10 em relação a Marçal.

Os institutos de pesquisa que aferem a intenção de voto do eleitor paulistano, em sua maioria, apontam para liderança de Nunes com Boulos em segundo. Os divergentes colocam Boulos em primeiro e a possibilidade real de Marçal estar no segundo turno.

Como não seguem a mesma metodologia dos institutos de pesquisa e não são registrados na Justiça Eleitoral, os trackings são pesquisas apenas para consumo interno, para orientar as campanhas. Ajudam a captar tendências, mas por vezes dizem o que o cliente quer ouvir.

Há um fator que preocupa as campanhas de Nunes e Boulos sobre o eleitor médio de Marçal. Como mostrou o Bastidor, as pesquisas internas mostram uma volatilidade na intenção de votos no coach provocada por movimentos imprevisíveis e rompantes do candidato.

Marçal estava em viés de queda após o ato de 7 de setembro na avenida Paulista, que o contrapôs ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a lideranças evangélicas. A encenação feita em uma ambulância após a agressão de José Luiz Datena também pesou contra ele.

No entanto, Marçal ganhou dois pontos, segundo as pesquisas internas, após um dos seus assessores agredir o marqueteiro de Nunes, Duda Lima, durante o debate organizado pelo Flow na semana passada.

A avaliação é que Marçal já deveria ter caído para 12% ou 13% das intenções de voto. Não foi o que ocorreu. O coach segue na casa dos 20 pontos percentuais.

Para os potenciais erros, os institutos justificam que as pesquisas são “um retrato do momento” e não uma previsão do futuro. Dizem que os levantamentos antecipam tendências, mas não explicam eleições com movimentos repentinos. E exageram no argumento da margem de erro.

Desde 2018, há uma clara dificuldade dos institutos em captar votos da direita. Naquele ano, Wilson Witzel e Romeu Zema, por exemplo, venceram as eleições no Rio de Janeiro e em Minas Gerais sem aparecerem na liderança das pesquisas.

Movimento semelhante ocorreu em 2022, mesmo no pleito presidencial, quando poucos dias antes do segundo turno as projeções eram bastante diferentes de um levantamento para outro. A maioria apontou para uma vantagem maior de Lula sobre Jair Bolsonaro. O resultado, contudo, foi a disputa mais acirrada desde a redemocratização.

Esse é um elemento que parece estar presente na capital paulista. Formalmente, Bolsonaro apoia Nunes, mas boa parte dos seus eleitores e parlamentares que o apoiam já anunciaram voto em Marçal.

Uma eventual chegada de Marçal ao segundo turno vai contradizer as pesquisas e as tendências captadas pela maioria dos institutos em São Paulo até agora. Há exceções. Eventuais erros colocarão em xeque novamente os métodos de pesquisas na era digital.