A três dias do primeiro turno, além de ser a mais concorrida desde a redemocratização, a eleição para a prefeitura de São Paulo apresenta um inédito choque de candidatos outsiders. O coach Pablo Marçal, do PRTB, e o apresentador de TV José Luiz Datena, do PSDB, são o confronto entre dois modelos diferentes de populismo e a prova de que os clichês da política estão sendo destruídos pelos meios digitais.
Além de xingamentos e uma cadeirada, Marçal e Datena protagonizam o choque entre o velho e o novo de um modelo muito desejado pelos partidos, do candidato com apelo popular que nunca foi político e, por isso, pode atrair um eleitorado cansado dos profissionais da área.
Pré-candidato em outras quatro disputas desde 2016, Datena entrou na campanha como alguém a ser temido. Na visão do PSDB, sua popularidade advinda de 30 anos a televisão, jeito tosco e discurso duro em segurança pública seriam garantias de sucesso. Datena representa um populismo antigo, que já elegeu pessoas como o deputado Celso Russomano e outros tantos.
Coach e empresário, Pablo Marçal tomou o espaço de Datena com um populismo contemporâneo. Produto das redes sociais que tomam o espaço da TV na vida das pessoas, seu alcance suplanta o de Datena com facilidade. Marçal é um candidato do caos, de um partido minúsculo, que não respeita qualquer regra em debates, nada diz sobre projetos para a cidade, mas vende um ideal de prosperidade que rende milhões de reais em cursos online.
Suas posturas fazem dos dois os candidatos mais rejeitados pelos eleitores. Segundo a pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (03), 53% dizem que não votariam em Marçal de jeito nenhum (eram 48% na última pesquisa), enquanto 39% dizem o mesmo sobre Datena (eram 36%).
Mas seus destinos são diferentes. Com míseros 4%, Datena será lembrado apenas pela cadeirada que aplicou em Marçal no debate da TV Cultura. Com 24% e com chances reais, ainda que não avance ao segundo turno, a preço de hoje Marçal estará no páreo para 2026.
Como outsiders, eles contrariam postulados da política partidária. Tanto o inesperado insucesso eleitoral de Datena quanto o inesperado sucesso eleitoral de Marçal são sinais do dinamismo de um eleitorado que não segue o raciocínio dos políticos e está em mutação junto com a ascensão dos meios digitais de comunicação.
Datena foi escolhido pelo PSDB numa tentativa de aproveitar sua popularidade na TV, um modelo que funcionou com diversos outros candidatos. Os tucanos descobriram que este modelo ficou para trás. Datena esperou por oito anos e escolheu a eleição errada.
Marçal tomou eleitores bolsonaristas que, em tese, deveriam estar com o prefeito Ricardo Nunes, do MDB, que tem o apoio – ainda que envergonhado – de Bolsonaro. Nem mesmo ataques de Bolsonaro a Marçal mudaram muito a tendência. Bolsonaro influencia seus eleitores, mas eles acreditam que Marçal é mais Bolsonaro que Nunes.
O mesmo acontece na esquerda. O presidente Lula levou uma multa eleitoral por lançar Guilherme Boulos, do Psol, como candidato no 1º de maio. Apesar de candidato de Lula e com a ex-prefeita Marta Suplicy como vice, Boulos só conseguiu conquistar intenções de voto de metade dos eleitores que votaram no petista em 2022.

