Com o dólar cotado a 6,11 reais nesta sexta-feira (29), duas coisas estão claras. O mercado não aceitou bem o pacote de ajuste fiscal anunciado pelo governo federal. Em outra vertente, o futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, terá um início de mandato muito mais difícil do que se esperava a partir de janeiro.
Quando o governo Lula começou a falar no plano de corte de gastos, no início do outubro, o dólar era negociado a 5,46 reais. Chegou a 6 reais na quinta-feira (28), após o anúncio oficial das medidas e disparou nesta sexta de manhã, após os agentes se debruçarem sobre o conteúdo.
Ficou a impressão que, ao anunciar junto com medidas de corte de despesas uma renúncia fiscal que pode chegar a 40 bilhões de reais – com a isenção de Imposto de Renda a quem ganha até 5 mil reais mensais -, o governo está menos preocupado com o déficit fiscal e o crescimento da dívida pública, a maior fragilidade econômica do país hoje.
No final de outubro, quando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, apresentou as medidas ao presidente Lula, o consenso no mercado era que o Banco Central relevaria os juros em 0,5 ponto percentual na reunião de dezembro, que começa na terça-feira (03), e chegaria a 12%.
Com o atraso do governo e a má recepção das medidas pelo mercado, é quase consenso hoje que a alta dos juros será de 0,75 ponto percentual e a Selic pode passar dos 13% em 2026.
Isso significa que Galípolo, escolhido por Lula, pode ter de ser mais duro, ter de elevar os juros em ritmo mais rápido e numa dimensão maior. Quando Galípolo foi apontado por Lula para o cargo, e não havia a conversa sobre o pacote, estimava-se que o BC elevaria os juros este ano. Sobraria uma parte menor da maldade para ser feita por Galípolo. Isso mudou.

