O presidente Lula disse a pessoas próximas que deve indicar amanhã (5/12) Wadih Damous, secretário nacional do consumidor no Ministério da Justiça, para presidir a Agência Nacional da Saúde. O mandato do atual presidente da ANS, Paulo Rebello, termina no próximo dia 21.

A escolha de Wadih conta com o apoio de empresários do setor próximos ao presidente. Eles fizeram lobby pesado para emplacar o advogado, de acordo com fontes a par das tratativas. A indicação será encaminhada ao Senado, que deverá marcar e realizar a sabatina na Comissão de Assuntos Sociais.

Se assumir a ANS, Wadih ganhará poder. E terá que lidar com uma agência que vive sérios problemas. Sob a gestão de Paulo Rebello, falta pessoal e equipamentos adequados no órgão que fiscaliza os planos de Saúde.

Wadih é amigo de longa data de Lula. Advogado, foi um dos que assinou o habeas corpus concedido pelo desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, para soltar o petista em julho de 2018.

O secretário nacional do consumidor começou sua carreira defendendo sindicatos ligados ao PT, partido ao qual é filiado desde a criação da sigla. A militância petista fez com que Wadih, em 2016, defendesse o fechamento do Supremo Tribunal Federal. 

Naquele ano consumou-se o impeachment de Dilma Rousseff e o STF reviu seus entendimentos para permitir a prisão após decisão de segunda instância. A decisão abriu caminho para a prisão de Lula na Lava Jato.

Segundo Wadih, o fechamento do STF faria parte de um redesenho do Judiciário, que envolveria a criação de uma corte estritamente focada em questões constitucionais e integrada por ministros com mandato. “Temos que enquadrar essa turma”, disse à época, sobre os ministros.

Na mesma ocasião, ele também criticou diretamente Luís Roberto Barroso, ministro da corte e seu ex-colega de faculdade de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. O advogado afirmou que seu conterrâneo, um dos que mais defendeu a operação de combate à corrupção e a prisão após decisão de segunda instância, era um “mal para a democracia” pelas “idiotices” que dizia.

A carreira política de Wadih, apesar das ajudas do PT e de Lula, é precária. Foi eleito deputado federal suplente em 2014, após diversas tentativas, e só assumiu o cargo em 2015 porque outros candidatos mais votados foram nomeados para cargos públicos pelo país. O mandato foi curto, pois o rompimento de relações entre PT e MDB motivou exonerações que o relegaram novamente à suplência.

A chegada de Wadih na política federal foi calcada no uso que ele fez da seccional da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro. Ele presidiu a entidade por dois mandatos, de 2007 a 2012.

Nesse período, Wadih foi acusado de destruir o plano de saúde da OAB para advogados. Em 2008, seu segundo ano de mandato, vendeu a carteira com 55 mil pessoas à Unimed Rio por 50 milhões de reais. Dezesseis anos depois, o total de clientes caiu para 5 mil.

Caso Lula consiga emplacar Wadih Damous na ANS, fará um favor a Ricardo Lewandowski, ministro da Justiça. Wadih não é muito popular na atual gestão da pasta. Ele, que já foi cogitado pelo PT para chefiar o ministério, é considerado “individualista” por colegas de governo.

O Bastidormostrou que Wadih encolheu no Ministério da Justiça por conta desse comportamento. Um dos episódios que exemplifica esse cenário foi a publicação forçada pelo secretário de diretrizes que deveriam ser seguidas por redes sociais. O documento nem sequer foi para o Diário Oficial da União.

Apuração e reportagem de Brenno Grillo e Karen Couto.