O grupo investigado por montar pirâmides financeiras que resultaram em prejuízos de cerca de 300 milhões de reais é acusado de ter usado um dos seus advogados para ocultar e blindar bens e, assim, evitar bloqueios judiciais. O caso tramita na Justiça de São Paulo desde 2022.
O Bastidor teve acesso com exclusividade a documentos dos processos que correm em sigilo. São inquéritos policiais, pareceres do Ministério Público de São Paulo e decisões judiciais sobre o esquema montado pela Canis Majoris Ltda. A empresa é alvo da Polícia Civil, do MPSP e da CVM (Comissão de Valores Imobiliários) por prática de golpe com pirâmide financeira.
As vítimas relatam que foi prometido pagamento de juros mensais de 3%. Em um dos casos, dois familiares colocaram 600 mil reais com a perspectiva de ganhos. Os meses passaram e não ganharam nada.
Nos documentos aparece o nome do advogado Renato Faria, que defende o grupo nas ações. As vítimas levaram à Justiça informações de que o profissional era cotista oculto dos fundos da empresa Topspin, associada ao esquema.
De acordo com as vítimas, uma empresa de Faria foi utilizada para ocultar e blindar bens dos réus principais. Seria uma forma de evitar bloqueios e forçar pagamentos de credores. Nos autos, consta que o advogado e sua família usufruíam de bens que formalmente pertenciam a empresas do grupo investigado – entre eles, um carro.
Renato Faria foi alvo de arresto cautelar – medida de apreensão de bens – em decisão da 33ª Vara Cível do Foro Central Cível de São Paulo. A Justiça mandou bloquear 28 mil reais de suas contas bancárias. Ele alegou que os valores eram de natureza alimentar, para suas despesas pessoais e manutenção de sua atividade como advogado.
Faria sustentou que não havia provas suficientes para vinculá-lo diretamente ao esquema de pirâmide financeira e que não existiam documentos que demonstrassem que sua empresa ou contas eram usadas para ocultar bens. O bloqueio foi revertido posteriormente. O Bastidor tentou contato com Renato, mas não conseguiu.
Além da Canis Majoris e do BTG, são citados nos documentos como participantes do esquema o administrador de fundos Intrader, a gestora Flórida, o GR Ultimate Fundo de Investimento em Cotas, a Topspin Soluções de Pagamentos, GR Bank, Tawlk Payments. Aparecem também os sócios da Canis Majoris, Mateus Davi Pinto Lucio, Jorge Luiz Pereira Barbosa Junior, Isis de Oliveira Barbosa e Luelly Ramos de Jesus.
O BTG Pactual, como mostrou o Bastidor, também foi envolvido na disputa judicial que opõe a Canis Majoris às vítimas. O banco de André Esteves tenta se livrar de decisão que bloqueou parte dos seus ativos. O BTG diz que era somente distribuidor de cotas de um dos fundos suspeitos. Essa atuação, segundo sua defesa, exime o banco de qualquer responsabilidade sobre as vítimas que levaram o caso à Justiça.
As vítimas tentam recuperar os valores investidores, ainda sem sucesso.

