O lançamento público do código do modelo de inteligência artificial generativa da empresa chinesa DeepSeek abalou o mercado de ações das grandes companhias de tecnologia dos Estados Unidos. Apenas na manhã desta segunda-feira (27), a fabricante de chips Nvidia, a Amazon, a Microsoft, a Meta e a Alphabet, controladora do Google, amargaram uma perda de valor de mercado de 750 bilhões de dólares.

O que há por trás da empresa chinesa que assustou as gigantes dos Estados Unidos – e seus respectivos investidores – é o anúncio do novo modelo de inteligência artificial generativa criado por ela e nomeado de R1. Segundo a DeepSeek, o treinamento dessa ferramenta custou apenas 5,6 milhões de dólares, valor muito abaixo do principal concorrente, o modelo o1, produzido pela OpenAI, dona do ChatGPT.

O modelo R1 foi apresentado com código aberto, permitindo a pesquisadores de todo o mundo realizar testes com a ferramenta. Nessas análises, já foi possível validar que o modelo de inteligência artificial é tão poderoso quanto o mais avançado da OpenAI. E o R1, além de ser aberto a qualquer um, roda localmente, em computadores relativamente simples – ao contrário do modelo fechado da Open AI, que roda na nuvem e mediante um uso imenso de dados e energia.

A tecnologia apresentada pela DeepSeek aponta ser possível atingir resultados expressivos em modelos de inteligência artificial sem incorrer nos custos bilionários hoje associados a essas ferramentas. O modelo da DeepSeek, ao abalar essa premissa, abala as empresas e os investidores que apostaram alto nesse caminho.

O anúncio mostrou ao mercado que, em tese, é possível fazer grandes descobertas nessa área com valores considerados muito baixos para o setor. A Meta, por exemplo, anunciou um gasto de 65 bilhões de dólares só para treinar a inteligência artificial que hoje está presente nos produtos da empresa, como Instagram, Facebook e WhatsApp, valor bem acima do que a DeepSeek afirma ter usado para um modelo mais complexo.

O exemplo da DeepSeek também abre questões para empresas de tecnologia ao redor do mundo, em especial em países menos desenvolvidos nessa área, como o Brasil. Se os chineses conseguem fazer tanto, com tão pouco, empresas locais podem avaliar a possibilidade de aplicar esses conceitos e produzir ferramentas semelhantes, sem depender, necessariamente, do auxílio de nações mais avançadas nessa área, como a própria China ou os Estados Unidos.

A DeepSeek faz parte de um dos principais fundos hedge da China, o High-Flyer Quant, avaliado em cerca de 8 bilhões de dólares. A empresa afirma que possui o maior estoque de GPUs, do modelo A100, na China. O chip da Nvidia é considerado um dos mais potentes do mundo, o que ajudou consideravelmente na criação da nova inteligência artificial.

Por causa desse poder tecnológico, o governo dos Estados Unidos proibiu a exportação dessas placas para a China, mas o fundo já havia adquirido os aparelhos antes da restrição.

O fundo e a própria DeepSeek são coordenados por Liang Wenfeng, que ficou bilionário ao usar a inteligência artificial para automatizar os investimentos do High-Flyer. Foi nesse processo que ele e os sócios decidiram criar uma empresa focada na pesquisa da inteligência artificial generativa.

Segundo o próprio Wenfeng, em entrevista ao site China Talk, uma das razões para os custos reduzidos no treinamento da inteligência artificial foi o uso de uma equipe bastante reduzida de pesquisadores. Ele também diz que preferiu investir no treinamento da própria equipe, em vez de apenas recrutar os melhores nomes do mercado, o que elevaria substancialmente os valores envolvidos.

Dentro da equipe, ele e todos os funcionários da DeepSeek trabalham sem uma liderança necessariamente hierarquizada. Isso permite, segundo Wenfeng, uma melhora na comunicação e criação de novas ideias e projetos dentro da empresa, o que também ajuda a agilizar os resultados, pois reduz consideravelmente a burocracia interna.

As ferramentas anunciadas pela DeepSeek nos últimos meses e os preços cobrados pela empresa, bastante abaixo do mercado, também impactaram não só empresas dos Estados Unidos, mas da própria China. Gigantes como a Tencent e a ByteDance, dona do Tiktok, foram obrigadas a rever custos para poder competir com a nova empresa.