O Ministério do Turismo divulgou no dia 15 que mais de 5 milhões de turistas estrangeiros estiveram no Brasil entre janeiro e junho deste ano, um aumento de 48% em relação ao mesmo período do ano passado. No entanto, uma pequena parcela deste número otimista inclui provavelmente refugiados venezuelanos contabilizados como turistas.

Dados divulgados pela Embratur (Empresa Brasileira de Turismo) mostram que, até o início de julho, 80.500 venezuelanos entraram no Brasil, a maioria por via terrestre. Desse total, 49.821 que entraram a pé foram contados como turistas.

Não há uma metodologia explícita nos dados divulgados pela Embratur ou por outros órgãos responsáveis pelo controle da entrada de estrangeiros no país — como a Polícia Federal e o Ministério do Turismo — que separe os estrangeiros que ingressam no país entre turistas, refugiados ou estrangeiros a trabalho.

Assim, pessoas que entram a pé no país podem ser contabilizadas como turistas. No caso específico dos venezuelanos, 72% deles entram no Brasil dessa forma. Segundo dados do Ministério do Turismo, em 2024, dos cerca de 83 mil que entraram a pé, apenas 27 mil foram registrados como refugiados.

Mais de 90% dos venezuelanos que entram no Brasil o fazem por via terrestre, pela fronteira com Roraima, e chegam primeiro a Pacaraima (RR). No início de 2025, o ingresso de venezuelanos explodiu: cresceu 1.028% em janeiro e 1.003% em fevereiro, em comparação com os mesmos meses em 2024. É, disparado, o maior crescimento entre todos os grupos de estrangeiros.

Os dados históricos mostram que a maioria dos venezuelanos não vem ao Brasil para fazer turismo, mas para fugir de provações em seus país. O fluxo de entrada começou a crescer significativamente a partir de 2017, devido à tragédia humanitária causada pela decadência da ditadura de Nicolás Maduro. Entre 2017 e 2022, cerca de 700 mil venezuelanos entraram no Brasil – metade deles ficou, segundo dados do governo.

De acordo com a Polícia Federal, até o dia 18, o Sistema de Tráfego Internacional registrou a entrada de 85.534 venezuelanos este ano – número maior que o da Embratur por ser mais atualizado. Desses, apenas 4.421 pediram refúgio no Brasil.

“A classificação do visitante é realizada no ponto do controle migratório com base nas informações e eventuais documentos apresentados no momento do atendimento. Muitos venezuelanos entram como visitantes e depois procuram as estruturas de apoio, como as da Operação Acolhida, e ali iniciam o processo de refúgio ou de residência por acolhida humanitária”, afirma a PF em nota.

Embora os mais de 80.000 venezuelanos que entraram este ano e foram computados como turistas não alterem significativamente o crescimento do número geral, a contagem imprecisa gera distorções nos dados oficiais.

Em nota divulgada em abril de 2025, o Ministério do Turismo afirmou que o uso do termo “turista” segue as Recomendações Internacionais para as Estatísticas de Turismo da ONU Turismo, mas não explica qual metodologia aplicada.

Nesse contexto, o senador Jorge Seif (PL-SC) requisitou ao Ministério do Turismo, em abril, informações sobre a metodologia e os critérios de classificação utilizados para distinguir turistas e refugiados.

Em nota enviada ao Bastidor, a Embratur informou que a classificação e os critérios são realizados pela Polícia Federal e que só divulga os dados.


Texto atualizado às 13h35 de 23 de julho para incluir nota da Polícia Federal.