Procuradores da República estão diante de um dilema estratégico: avançar agora ou não contra integrantes do Judiciário do Rio, em especial a cúpula do Tribunal de Justiça local. Investigadores da Lava Jato – mas não apenas da Lava Jato – já detêm elementos de prova que julgam suficientes para deflagrar operações contra pessoas próximas a desembargadores e juízes do estado.
No mundo ideal, evidências e uma interpretação razoável das leis penais seriam suficientes. No mundo real, investir, mesmo que indiretamente (por meio de assessores ou advogados próximos), contra integrantes do Judiciário requer, também, estratégia. Requer saber avaliar se as circunstâncias são favoráveis. E, igualmente, calcular como o ataque – pois qualquer investigação é interpretada como ataque, tenha essa intenção ou não – afetará os demais casos presentes e futuros.
Por uma miríade de razões, todas as investigações (da Lava Jato ou não) potencialmente significativas contra integrantes do Judiciário deram em nada. Por que agora seria diferente? É o que se perguntam alguns dos investigadores.
Um novo fator pesa, contraditoriamente, tanto a favor quanto contra essa decisão estratégica: o Tribunal de Justiça do Rio está cada vez mais poderoso.
O TJ do Rio é responsável pelo caso do senador Flávio Bolsonaro, denunciado pelo Ministério Público do Rio na semana passada no caso das rachadinhas. Esse processo é um dos mais relevantes do país; as provas conspurcam a família do presidente da República, além do próprio Bolsonaro. É um caso de consequências políticas imprevisíveis.
Ademais, o TJ segue como instituição-chave no comando político presente e futuro do estado, diante do impeachment de Wilson Witzel.
Como os desembargadores reagiriam a operações que atingissem alguns de seus integrantes, mesmo que indiretamente? Qual atitude tomariam quanto à denúncia oferecida contra Flávio Bolsonaro? Sentiriam-se pressionados e capitulariam a essa pressão? Ou agiriam do modo oposto? Sentindo-se indevidamente acossados, reagiriam rejeitando a denúncia contra Flávio Bolsonaro e se unindo contra procuradores e promotores em casos presentes e futuros?
Os investigadores tentam responder a perguntas desse jaez, que têm natureza política. Novamente: no mundo ideal, não precisariam considerar questões políticas e estratégicas. Nos grandes casos, porém, não se trata de uma opção.
Por mais que o caso das rachadinhas seja tocado pelo Ministério Público do estado, e não pela Lava Jato, os destinos de procuradores e promotores interligam-se.
Contudo, embora considerações de ordem estratégica e política possam influenciar os investigadores dos grandes casos, as tomadas de decisão costumam convergir para o que eles avaliam ser o interesse público e, consequentemente, para a necessidade de agir, desde que em face de elementos suficientes para tanto.
É esse o padrão de comportamento nos últimos anos, para o bem e para o mal. Será diferente agora? Ainda não sabemos.

