Técnicos do Ministério da Saúde responsáveis pelo combate ao coronavírus revelam, reservadamente, grande preocupação com a expectativa dos brasileiros quanto aos rumos da pandemia.
Eles acreditam que a postura negacionista de Bolsonaro e a impossibilidade prática de que o militarizado Ministério da Saúde comunique com clareza as incertezas sobre o desenrolar da pandemia tenham criado, em parte expressiva do público, ilusões quanto ao que esperar em 2021.
Também colabora para essa fantasia coletiva a exploração política da Coronavac, uma parceria entre o Instituto Butantan e a empresa Sinovac. A defesa enfática do presidente do Butantan, Dimas Covas, sobre a eficácia ainda não comprovada da vacina chinesa causa perplexidade nos técnicos.
Na visão desses gestores qualificados, o desarranjo institucional e político do país, com disputas entre Bolsonaro e Doria, além das brigas ideológicas sobre o vírus e acerca da vacina, contribuem para um cenário em que o público não perceba a realidade: 2021 será um ano difícil.
Abundam incertezas – incertezas que recomendam cautela. Qualquer vacina ainda é uma esperança e, mesmo que se prove segura e eficaz, dificilmente imunizará todos os brasileiros em 2021. Não há logística disponível para essa missão, ainda que se considere o cenário mais otimista.
Em linhas gerais, esses e outros fatores levam os técnicos a pressionar seus superiores para que comuniquem ao público uma mensagem simples, mas custosa politicamente: preparem-se para um 2021 difícil, repleto de incertezas, no qual a pandemia e as medidas restritivas de combate a ela ainda estarão presentes.

