Em sua última live presidencial, no dia 28, Jair Bolsonaro deu “graças a Deus” pelas chuvas dos últimos dias, mas ressaltou que ainda “precisa chover mais” para que não haja racionamento em 2022 – a medida foi cogitada neste ano, mas descartada após o aumento dos níveis pluviométricos.
Antes disso, a preocupação com a falta de água e energia foi tamanha que até apelos ao sobrenatural foram feitos. O governo procurou a Fundação Cacique Cobra Coral em busca de auxílio xamânico para a água cair do céu, já esperando o crescimento no consumo – que em setembro aumentou 5,5% na comparação do acumulado dos últimos 12 meses com o período imediatamente anterior.
Bolsonaro pode até pedir aos céus, mas sempre soube dos riscos de crises hídrica e energética no Brasil. O presidente também tem noção de que esses problemas nasceram da falta de planejamento.
Um exemplo disso foi Bolsonaro dizer que reduziria a bandeira tarifária e depois ser publicamente contrariado por Bento Albuquerque. O ministro de Minas e Energia negou qualquer mudança na conta de luz. No fim das contas, baixou-se o preço da cobrança apenas de consumidores inscritos em programas sociais.
Relatórios da Agência Nacional das Águas (ANA) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) alertam para riscos de falta d’água e de energia desde que a Presidência da República passou pelas mãos de PT e MDB.
A ANA já citava em 2018 o registro de “recordes (maior seca do histórico) de seca nas RHs [Regiões Hidrográficas] do São Francisco, Parnaíba, Tocantins-Araguaia, Atlântico Leste, Atlântico Nordeste Oriental e Atlântico Sudeste”. Naquele ano, a agência também alertou que, em 2017, “cerca de 38 milhões de pessoas foram afetadas por secas e estiagens no Brasil”.
Em 2019, primeiro ano da gestão bolsonarista, novo aviso da ANA. A agência disse ao governo recém-empossado que, em 2018, 51% das mais de 5,5 mil cidades brasileiras decretaram situação de emergência ou estado de calamidade pública por conta da seca – há três anos, ainda de acordo com o órgão, 43 milhões de pessoas sofreram com a falta de chuvas no Brasil.
O mesmo cenário de falta de planejamento pode ser visto no setor de energia, que depende diretamente da quantidade de água. Até dezembro de 2019, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico, dos 162 GW de capacidade instalada no Sistema Interligado Nacional (SIN), 63% vinham de hidroelétricas, 14% de termoelétricas e usinas nucleares e 23% de outras fontes, como biomassa, eólica e solar.
Ainda em 2018, a EPE apontava para um crescimento médio anual de 3,8% da carga sobre o Sistema Interligado Nacional até 2023 – todas as projeções consideraram a crise econômica vivida pelo país desde 2016, ou seja, em momento algum são consideradas oscilações por criação de nova demanda, somente a retomada de padrões anteriores.
Para 2021, o ONS prevê 4,6% de aumento da carga – essa projeção, diz o órgão, considera “um incremento do PIB de 5,0%”, o que já foi descartado por bancos e economistas.
As soluções – sempre de médio e longo prazo – são as mesmas sugeridas desde os governos petistas: investimento em equipamentos de maior eficiência (tanto na produção quanto na distribuição de eletricidade), além de melhor discussão prévia e análise técnica para acelerar o licenciamento ambiental de hidrelétricas.
Mas, mesmo com previsão de baixo crescimento econômico, o Brasil tem muito o que resolver sobre o aproveitamento de água e energia. Dados de 2019 do instituto Trata Brasil mostram que 39,2% de toda a água potável consumida no país foi perdida no trajeto entre as unidades de tratamento e residências.
Para contornar essas deficiências, o Congresso, com forte apoio do governo, aprovou o marco regulatório do saneamento. Mas a ideia, que busca maior participação da iniciativa privada no setor, é de longo prazo, levando décadas até reduzir consideravelmente essa deficiência.
Especificamente sobre o consumo de energia, a solução no curto prazo continua no uso de termelétricas. Porém, medidas como essa tendem a ser cada vez mais mal vistas – a COP26, na Escócia, é exemplo da preocupação global com o clima. Tanto que o Brasil se comprometeu em reduzir 50% das emissões de gases de efeito estufa até 2030. Só falta saber se essa meta será cumprida.

