A COP26 tem sido confusa para o Brasil. O governo fez promessas consideradas ousadas e irreais que deixaram o agronegócio um pouco perdido sobre qual rumo tomar. Muitos defenderam que o Brasil não precisa aumentar suas metas de redução, mas regulamentar seu mercado ambiental e começar a lucrar com isso.

A China, que tem perto de 700 fundos de investimento “verdes” (por causa da preocupação com a preservação), está de olho nessa perspectiva por investimentos. A promessa de parceria com os EUA para manter a temperatura global em até 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais e o compromisso do país em zerar até 2060 a emissão líquida de gases que causam efeito estufa vão além do que o país pode fazer internamente.

Com emissão anual de 11,5 mil megatoneladas de CO2 anuais, a China lidera a lista dos poluidores. EUA e União Europeia, somados, totalizam 8,4 mil megatoneladas.

Xi Jinping já prometeu que os chineses deixarão de investir em matrizes energéticas fósseis nos próximos anos, fazendo com que os R$ 12,8 bilhões anuais gastos pela China desde 2008 com esses projetos sejam redirecionados para fontes renováveis de energia.

Essa mudança de diretriz, sozinha, não resolverá os problemas da China, mas a promessa do Brasil em acabar com o desmatamento até 2029 e o mercado brasileiro de carbono podem ser parte da saída.

Empresários brasileiros com bom diálogo junto com os setores público e privado da China afirmaram ao Bastidor que essa “espécie de simbiose” se encaixa perfeitamente em uma das diretrizes do último plano quinquenal do país: reciprocidade nas relações internacionais. O Brasil ganha com a venda desses créditos e a preservação ambiental enquanto a China alcança suas metas e reforça sua força geopolítica na América Latina.

O Brasil deu mostras na própria COP26 de que o foco do país será em canalizar investimentos para lucrar com preservação ambiental. Apesar da ausência de Jair Bolsonaro, seus ministros apresentaram o programa Floresta+, que traz diretrizes para pagamentos por serviços ambientais.

Tereza Cristina, da Agricultura, afirmou no evento realizado em Glasgow, na Escócia, que o Brasil irá disseminar tecnologias de baixa de emissão de carbono a 72 milhões de hectares agrícolas até 2030.  A mensagem foi reforçada por Carlos França, que defendeu a sustentabilidade como política agrícola brasileira.

Só que a busca do governo bolsonaro é por lucro, não preservação, como resumiu o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite: “onde há muita floresta há muita pobreza”.

Levantamento da WayCarbon com a ICC Brasil mostrou que o Brasil pode gerar de US$ 493 milhões a US$ 100 bilhões em crédito de carbono até 2030. Parte desses valores, afirmam as consultorias, viriam do setor agropecuário, que tem potencial, de acordo com o levantamento, de gerar de 10 a 90 milhões de créditos (baseados em toneladas de emissão), que valeriam até US$ 9 bilhões num cenário otimista.

Mas, como mostra a discrepância da estimativa, o mercado de carbono no país ainda engatinha. A Câmara tem discutido um projeto do vice-presidente da Casa, o amazonense Marcelo Ramos, que regula essas transferências, permitindo a venda desses “títulos” entre atores públicos privados – as vendas entre empresas não passam por regulação, são vendidas no mercado livre – a ideia tem apoio da CNI.

Outro flanco brasileiro que a China quer explorar para créditos de carbono é o saneamento. Já há conversas superficiais entre empresários brasileiros e chineses por conta do potencial criado a partir do Marco do Saneamento, aprovado neste ano pelo Congresso.

O setor, pouco relacionado ao mercado de carbono por muitos, é visto pelos profissionais da área como uma oportunidade devido ao contexto. O Brasil tem muito o que melhorar tanto em tratamento quanto em coleta de esgoto, o que abriria caminho para investimentos chineses que resultariam nos créditos de carbono.

Lobistas ligados ao saneamento disseram ao Bastidor que o vice-presidente da Câmara, inclusive, já conversa com representantes chineses e pretende se reunir com alguns deles em Barcelona, no próximo dia 16, durante o Smart City Expo World Congress, para discutir inovação e como o mercado de carbono que está sendo modelado no Brasil irá se inserir nesses novos modelos.